
Nuno Crato e o
inglês
obrigatório no primeiro ciclo. Em condições normais, sem os cortes que
desviaram também da Educação os impostos que passaram a servir para pagar os juros
astronómicos de uma dívida que os três de sempre não querem renegociar, este
upgrade do enriquecimento curricular de carácter facultativo que Crato herdou da
governação
Sócrates seria uma excelente
ideia. A medida porventura até poderia ser financiada com os recursos previstos
naquela passagem do memorando onde ficou acordada uma redução progressiva do
financiamento público a colégios privados, mas o Governo do rigor e das reformas
estruturais, pelo contrário, fez questão de ficar aquém da troika nesse capítulo
e aumentou esse financiamento, que desviou de todas as escolas onde a qualidade
pedagógica se ressente do dinheiro que falta para pagar condições mínimas de
funcionamento. Há problemas gravíssimos que os nossos governantes continuam a poder
dar-se ao luxo de ignorar. em mês de eleições, Nuno Crato lembrou-se de tirar
da cartola um coelho que quer ver a falar um inglês obrigatório que desde o
início se desobriga a abranger todas as escolas. Desejavelmente, a escola é
aquele espaço onde as nossas crianças aprendem a ser bons cidadãos e,
precisamente com essa finalidade, existem actividades extra-curriculares para
que os miúdos aprendam a ser gente. Seria extremamente pedagógico, quer para as
crianças, quer sobretudo para o Ministro, que numa destas actividades numa das
mais que muitas escolas onde falta de tudo um pouco, professores e alunos se
empenhassem na composição de mensagens a dirigir ao Ministro depois de devidamente traduzidas para inglês, tais
como “tiritamos de frio todo o Inverno”, “ falta dinheiro até para uma simples
fotocópia” ou “é uma vergonha que ponham desempregados a receber uma ninharia a
ocuparem os lugares dos auxiliares que deveriam contratar com direito a salário
por inteiro, que preferem condenar a desempregos sem direito a qualquer
protecção social”. Seria de Escola e seria de professor lançar as sementes para
que os nossos homens e as nossas mulheres de amanhã aprendessem desde pequeninos
a reagir energicamente sempre que um governante se atreva a brincar com as suas
vidas. A escola e os professores de ontem não o fizeram e hoje pagamos um preço
insuportável pelo défice de cidadania que produziu Cratos, Barrosos, Coelhos, Portas,
Cavacos e toda a espécie de bandidos e impostores que jamais singrariam numa sociedade
que pudesse contar com a Escola pública para formar cidadãos em regime obrigatório.