«(…) Os juros descem na Grécia,
descem em Portugal, descem em Espanha e descem em todos os periféricos. E
descem tanto mais quanto mais altos estavam antes de toda esta euforia começar.
Como mostrou o economista Paul de Grauwe, depois da garantia de Draghi de que o
BCE faria tudo o que fosse necessário para evitar o desmembramento do euro, o
que melhor explica a descida dos juros é o nível inicial desses mesmos juros:
quanto mais alto era o nível, maior é a queda. E descem porque, fruto das
políticas expansionistas dos bancos centrais, há um excesso de liquidez nos
mercados, que, por não haver oportunidades de investimento real, tem
forçosamente de ser investido no que resta, que são os ativos financeiros. Se
juntarmos a isto a saída de capitais dos mercados emergentes, as baixíssimas
taxas de rentabilidade disponíveis, torna-se mais fácil entender por que razão
há tanta procura pela dívida pública dos países da chamada periferia: é o que
permite garantir alguma rentabilidade num mundo financeiro que não pode existir
sem essa rentabilidade.(…) Esta situação é o resultado inevitável da estratégia
que consistiu em mobilizar todos os recursos públicos para inflacionar o preço
dos ativos financeiros sem cuidar de reabilitar a realidade económica que lhe
subjaz. Inundar o sector financeiro de liquidez ao mesmo tempo que se destrói a
economia e a procura com políticas de austeridade tinha de resultar na criação
de dois mundos, um mundo financeiro cheio de dinheiro para aplicar, outro com
uma economia onde não vale a pena investir. Perante isto, o setor financeiro
vê-se forçado a investir em si próprio e nos ativos que estão disponíveis. A
bolha é, pois, o resultado racional de uma estratégia que é, em si mesma,
irracional e que, mais cedo ou mais tarde, vai rebentar. Podemos adiar o
confronto com a realidade, mas ele, em algum momento, terá de chegar: países
com mais dívida e menos capacidade de a pagar não podem garantir um final feliz
para esta história.» – João Galamba, no Diário
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