A porca. Comprada por três
partidos que se puseram de acordo em pagá-la com o suor e com o sangue do seu
povo, cortou nos salários o que proporcionou aos lucros e às rendas e
chamou-lhe ajustamento. Deu aos grandes o que retirou aos pequenos,
desmantelando serviços públicos para proporcionar fortuna a privados e
chamou-lhe reformas estruturais. Destruiu a economia, alegadamente para
fortalecê-la, e foi chamando sucesso aos fracassos sucessivos que foi
acumulando no saco dos auto-elogios. Semeou fome e miséria para reequilibrar
contas externas e vangloriou-se da cobardia a que chamou de coragem. Empobreceu
e desempregou para melhorar a capacidade de pagamento de uma dívida que não se
comoveu com as boas intenções do inferno da porcalhona e iniciou um galope
desenfreado acelerado pela austeridade e pelos juros agiotas que a vão fazendo
aumentar como nunca. Mesmo que se fosse embora – e não vai: ficam a mesma
austeridade selectiva, uma multidão de desempregados aumentada em meio milhão
de pessoas, uma dívida pública que cresceu 30% em apenas três anos, uma
economia em fanicos, as “avaliações” periódicas e as mesmas regras de um Banco
Central Europeu que não tem pejo algum em pôr países como Portugal à mercê da
ganância da especulação financeira –, nem que fosse por ser uma porca tãocomprovadamente porca, a besta teria sempre uma saída tudo menos limpa. A nossa
não. Ontem, regressei a tempo de ouvir Pedro Passos Coelho, com mais um aumento
de impostos fresquinho num bolso e com mais cortes à espera de vez escondidos no outro, a
anunciar-lhe uma saída limpa. E sê-lo-á, limpinha, se nas eleições do próximo
dia 25 os três que compraram e engordaram a porca puderem confirmar que quanto
mais porcaria fizerem menos votos necessitam para se fazerem eleger. Será à
escolha do freguês. Ou sujamos a porca, ou vamos ter que conviver com ela por
pelo menos mais 20 anos, até pagarmos 75% do todo que custou o que a porca
comeu até agora. E já sabemos que a porca não vai parar de comer. Era uma vez
uma porca limpinha. A fábula que nos andam a contar até parece um conto
infantil.
