Quando, ainda durante a governação Sócrates, começaram a fechar unidades de saúde e a concentrar urgências, lembro-me de ouvi-los dizer que era demagogo todo aquele que manifestasse a sua inquietação ao ver aumentar a distância para o hospital ou centro de saúde mais próximo porque haveria sempre uma Viatura Médica de Emergência e Reanimação (VMER) que garantiria a todos os cidadãos um atendimento rápido e de qualidade. O Governo Sócrates caiu e os senhores que se seguiram, pela mão da sua estrela Macedo, prosseguiram o desmantelamento do SNS, concentrando e extinguindo ainda mais urgências, racionando ainda mais medicamentos e exames complementares de diagnóstico, reduzindo salários, reduzindo efectivos, restringindo novas contratações. E as VMER sempre a garantirem o tal atendimento rápido e de qualidade.
Em Dezembro passado, porém, um
acidente mal combinado aconteceu precisamente no momento em que uma destas
viaturas estava inoperacional. Quatro mortos. No Domingo passado, outra vez a
mesma VMER, a de Évora, esqueceu-se de perguntar se por acaso alguém fazia
questão de ter um acidente nessa tarde em que voltaria a estar fora de serviço.
E houve um acidente em
Estremoz. Mais dois mortos. O que raio aconteceu? Azar do diabo,
o médico que estava escalado para essa tarde faltou por motivos de saúde e não
havia ninguém para o substituir. Poupanças.
Poupanças que o Bastonário da
Ordem dos Médicos identifica: “Está a acontecer um pouco por todo o país e não
é por falta de médicos. O problema é que os hospitais, que foram obrigados a
receber as VMER sem um orçamento acrescido,
estão em ruptura financeira e tentam poupar em tudo”. José Manuel Silva
avança, a propósito, com o exemplo do hospital de Gaia, que “há alguns meses
propôs pagar aos médicos da sua VMER 12 euros brutos à hora e sete euros brutos
à hora aos enfermeiros, o que, descontados os impostos, dava metade”. “Quem é
que está disposto a arriscar a vida por estes preços? Este é um trabalho de
altíssimo risco”, nota.
O país do terror e o país das maravilhas.
"Turismo
de Saúde e bem-estar pode render 400 milhões por ano: operar Ingleses Às
Cataratas, Colocar Próteses Da Anca E Do Joelho Em Doentes Franceses E Alemães
Pode Tornar-Se Uma Prática Corrente Dentro De Alguns Anos Em Portugal",
via-se, ouvia-se e lia-se na semana passada em toda a comunicação social.
Tínhamos um país que era nosso, tínhamos
um dos melhores serviços nacionais de saúde da Europa e tínhamos um INEM que era
um exemplo no mundo. Fomo-los deixando desmantelar sem protestar por não sabermos
dar-lhes o devido valor. Agora vibramos com notícias sobre os negócios da saúde de um
país para os outros. Se um dia destes houver um acidente mortal em que um estrangeiro
endinheirado morra como deixamos morrer os nossos, por falta de socorro, pode ser
que finalmente a nossa opinião pública tome consciência da vergonha que deixou acontecer.
Talvez nesse dia se perceba que aquela Saúde que diziam ser melhor do que a que
merecemos afinal também era fundamental para sermos aquele destino turístico que
queríamos ser.

