«1. Definitivo não é
extraordinário. Extraordinário não é definitivamente ordinário. Mas o ordinário
não é sinónimo de temporário. Pode significar até excepcional. Tão
repetidamente excepcional que até pode ser permanente. Ainda que passe por ser
transitório, o que não significa necessariamente anual. Mas, mesmo assim,
especial.
Tudo isto à volta de cortes. Ou
de poupanças, o (novo) nome do aumento de impostos ou do seu equivalente
algébrico do lado da despesa. Cortes que só por si vêm sendo também sinónimo de
reforma do Estado. E havendo cortes politicamente disfarçados, nunca se sabe se
é a somar ou a substituir ou, se sendo a substituir, se soma. É por isso que a
palavra adicional não significa necessariamente mais, mas mais menos. É a
aritmética desta forma de austeridade. De tal modo que parece que as palavras
passaram a ter mais poder do que as ideias.
2. Discussão pública da reforma
do sistema de pensões? É só escolher no cardápio das soluções não lidas ou mal
digeridas. Espanha, por exemplo (que, por acaso, está bem atrás de nós). Ou
Suécia, que é mais sofisticada. Ou Suíça, pois claro. Ou mesmo a Alemanha.
Coisa simples, desde que haja “corte e costura”. “Amplo debate público”,
diz-se, sem corar. Com quem? Mistério...
Criou-se um grupo para reflectir
sobre uma reforma da Segurança Social que seja duradoura. Tão duradoura que
está obcecada apenas com o problema orçamental de curto prazo predeterminado no
MF. Um indisfarçado meio de chegar a 2015: convergente no que for possível,
divergente no que for necessário. Parte-se do resultado (financeiro) e
desenham-se as “reformas” para o atingir. Tudo misterioso e errático...
Neste contexto surgiu uma nova
modalidade de briefing em que há quem ouça, mas ninguém fala. E do qual
resultou um cacharolete de palavras justificativas como manipulação,
especulação, ruído, desentendimento, embaraço.
Neste episódio reagiram o
primeiro-ministro, o vice-primeiro-ministro, o ministro da Presidência, o
ministro adjunto e até o ministro da Saúde. Só não falou quem deveria ter
falado: o ministro da Segurança Social e a ministra das Finanças.
3. Num outro plano, Portugal
inteiro não pode balbuciar essa palavra maldita que é reestruturação, assim
decretaram os entendidos, cá e em Bruxelas. Não vá o diabo tecê-las e os
mercados (curiosamente, agora sempre no plural) desconfiarem. Previu-se até que
só esta palavra faria subir em flecha os juros. Talvez renegociação,
reorientação, resolução ou recomposição, que têm a vantagem de ser
suficientemente ambíguas para não se dizer o que se quer dizer. Aliás, a
palavra reestruturação até dá jeito a alguns críticos com a insistência
desonesta da sua interpretação como perdão facial de dívida (ponto que afasto
liminarmente). Insinua-se um falso “não pagamos” para se quase impor o “não
falamos”. Como reflectiu Virginia Woolf: "A coisa nenhuma deveria ser dado
um nome, pois há perigo de que esse nome a transforme."
Não se pode falar de
reestruturação, mas não há pruridos em se falar em empobrecimento (à parte os
Audi), ainda que às vezes enroupado de ajustamento e mesmo que em regime de
experimentalismo social e geracional. E do empobrecimento através de uma
reestruturação (camuflada de poupança) que se vem fazendo quanto à dívida da
República aos reformados.
4. Enquanto andamos nos
trocadilhos Governo-oposições de saída limpa, cautelar, limpa quanto baste,
cautelar quanto necessário, a “clareza” de todos estes assuntos é para ajudar
as pessoas comuns a perceber as questões. Como agora sói dizer-se, uma forma de
transparência que é uma outra palavra alcandorada a obrigatória em qualquer
intervenção pública, muitas vezes para a ofuscar. E no caso dos mais velhos
para os acalmar e lhes dar a entender que tudo é para o seu bem. Um monumento
de insensibilidade onde se põe e dispõe em circuito-fechado da vida de milhares
e milhares de pessoas que mereciam ser integralmente respeitadas. A
desconsideração com que são tratadas em comparação com a delicadeza com que se
age (ou não) face a outros interesses é inadmissível. Por exemplo, foi evidente
(e bem) a busca de consenso para o IRC, como agora é notório, para a CES, o
carácter algo secretista quase significando a inutilidade de consenso.
5. Nada exclusivo de Portugal,
diga-se em abono da verdade. A política e a Europa foram tomadas por uma vaga
de palavras, um quase dialecto, incompreensível para os comuns mortais. Há quem
faça gala em usar termos que nada dizem, mas que impressionam ou dissimulam a
vacuidade. Desde a famosa geometria variável, à narrativa, temática e
problemática, sinergia e imparidade, ao alocar, agilizar, alavancar e
customizar, ao efeito já descontado em sede de qualquer coisa, ao disfuncional,
resiliente, etc.
Como disse Florbela Espanca “tão
pobres somos que as mesmas palavras nos servem para exprimir a mentira e a
verdade".» – António Bagão Félix, no Público.