António José Seguro, que sabe que
tem que aparecer a dizer umas coisas com a maior frequência possível, hoje
lembrou-se de dizer que vai
tirar os sem-abrigo das ruas fomentando a articulação da Segurança Social
com as Misericórdias, as associações particulares de solidariedade social e as autarquias
para criar “respostas multi-funções” de um "compromisso
civilizacional". Diferenças relativamente ao que vem defendendo o Governo
PSD/CDS? Talvez a diferença semântica. Aquela do "compromisso
civilizacional" é realmente boa e nunca a ouvi a Pedro Mota Soares. Em
todo o resto, tudo igual: caridade. E a caridade necessita de pobres, ou então
torna-se desnecessária.
Quem circula pelos centros das grandes cidades
todos os dias se confronta com dois espectáculos degradantes: o primeiro, o do
número cada vez maior de sem-abrigo. O segundo, o de casas cada vez mais
degradadas e fechadas mesmo ali ao lado. Os sem-abrigo podem dormir cá fora na
soleira da porta ou debaixo da varanda. Entrar é que não podem. Os três
partidos do centrão vão fazendo o que podem para dissociar dois fenómenos que
fazem parte de um problema maior.
Somos um país com pretensões a
destino turístico e permitimos que o produto que oferecemos a quem nos vem visitar
seja a degradação urbanística que também a nós, que cá vivemos, nos fere a vista e nos faz doer a
alma, nos obriga a ir viver longe do centro e nos encarece a habitação, um
direito consagrado na Constituição da República Portuguesa, não será descabido
recordá-lo. Somos uma sociedade que se diz europeia e do primeiro mundo mas que
convive pacificamente com o número crescente de excluídos que deixamos sejam
postos a viver na rua.
E muito porque não é do interesse
da especulação imobiliária que se proceda à revisão do regime de propriedade
que está na raiz dos dois problemas. Os proprietários de imóveis têm o direito
de deixá-los apodrecer à vista de todos sem o perigo de ficarem sem o imóvel
que não cuidam, sem o risco de serem multados pelo seu mau estado ou pagarem um
imposto por tê-lo desabitado. A restante sociedade que suporte todos os custos
daí resultantes, incluindo a factura das pensões ranhosas onde são
temporariamente alojados os sem-abrigo, que nunca ficam com o seu problema
definitivamente resolvido. Tal como a especulação imobiliária, a pobreza também
é um excelente negócio.

