Nove meses depois da última
emissão a 10 anos, Portugal regressou ontem aos mercados para pedir 3 mil
milhões de euros emprestados a bancos e fundos de investimento. Se em Maio de
2013, na primeira emissão a 10 anos desde a entrada da troika, o “êxito” custou
aos contribuintes portugueses – e proporcionou aos especuladores – 5,669% em juros
por 3 mil milhões, no “êxito” de ontem o preço a pagar
ficou
fixado nos 5,112%. Os nove meses de brutal austeridade do ano em que, em
média, cada 100 euros confiscados em sede de IRS foram esticados para os 135,
terminam com uma emissão de dívida com uma diferença na taxa de juro de apenas
0,55%.
Os 5,112% do “êxito” de ontem
comparam com os 4,1% que a Irlanda pagou na última emissão e com os cerca de
3,5% que Portugal paga pelo empréstimo concedido pela troika conjuntamente com
um pacote de exigências que não vão desaparecer com o alardeado regresso aos
mercados. E por uma razão muito simples: se os 3,5% cobrados pela troika são
impagáveis, ainda mais impagáveis o são os 5,1% de ontem. Nada melhor para
criar condições para impor uma austeridade selectiva, e selectiva porque paga
sempre pelos mesmos e proveitosa sempre para os mesmos, do que uma dívida a
crescer exponencialmente à sombra de um euro arquitectado para justificar
aimposição de uma agenda de reconfiguração social que esmaga salários e direitos
sociais e laborais ao mesmo tempo que proporciona avultados proveitos a um sector
financeiro delapidado por décadas de delinquência.
Com a segunda emissão de dívida
pública deste ano concluída ontem, canta-se vitória ao som de um refrão que diz
que o tesouro português passou a ter acumulados nos seus cofres um excedente de
tesouraria próximo de 20.000 milhões de euros. Um valor elevado que, segundo os
cantores do “êxito”, dá ao Estado português uma almofada de segurança na sua
estratégia de regresso aos mercados. Pequeno detalhe nada relevante, a almofada
custa em juros 50 milhões de euros mensais, 600 milhões anuais, isto é, quase o
dobro do valor previsto do confisco de pensões de reforma a que o Governo
chamou de “solidária”. Solidária com bancos aos quais o BCE cobra anualmente
pelos mesmos 20 mil milhões aquilo que estes cobram a Portugal por apenas um
mês de “almofada”. Uma “almofada” que seria desnecessária, isto é, custaria
zero, se o BCE garantisse liquidez instantânea aos Estados na medida das suas
necessidades de tesouraria.
Como sabemos, nem instantânea, nem retardada. O BCE
não empresta aos Estados. Caso o fizesse, não haveria nem austeridade
selectiva, nem reconfiguração social, nem
recapitalização da banca europeia. Não
haveria “sucessos” como o de ontem, nem “regressos aos mercados limpos”, nem “
reformasestruturais necessárias”, nem privatizações a preço de amigos, nem “Portugal no bom caminho”. E todos nós queremos Portugal
no bom caminho, não é verdade?