«A pluralidade da esquerda não é
um defeito. A diversidade da esquerda é um bem. Ela exprime trajetórias,
entendimentos do mundo, culturas políticas e propostas diferentes. Por isso,
reduzir caricaturalmente essas diferenças à defesa umbiguista do quintal não é
sério. Primeiro porque assim se desconsidera a riqueza da pluralidade e depois
porque quem o faz reclama invariavelmente para si as virtudes imaculadas do
desinteresse que mais não é do que o celofane de uma agenda de disputa de
hegemonia política. A tensão entre unidade e pluralidade da esquerda não é uma
questão de anjos contra demónios.
O bulldozer da austeridade exige
hoje esforços redobrados de convergência das esquerdas. E tragicamente o que
está diante dos nossos olhos - na Alemanha, em França, na Grécia ou em Portugal
- mostra que não se pode contar com os partidos da social-democracia para esse
enfrentamento. Engana-se quem crê que uma pressão credível à esquerda faria
infletir esses partidos, receosos da perda de eleitorado, para uma governação
de combate contra as troikas e em defesa dos direitos e dos serviços públicos.
Que não o tenham feito quando a relação de forças favorecia um tal compromisso
diz tudo sobre o que podemos esperar.
É neste quadro que a luta contra
a austeridade tanto ganhará força com uma convergência de proposta como a
perderá com um equívoco. Uma convergência baseada em equívocos seria o pior
serviço prestado à unidade necessária. Nem o desespero - tão genuíno como
instrumentalizável para dar cobertura a agendas próprias - desculparia a
cedência a equívocos. Ora, equívoco seria organizar uma candidatura às europeias
de que resultassem eleitos que depois se inseririam em famílias políticas
diferentes com posições diferentes no essencial. Equívoco seria fingir unidade
entre quem acha que este é o tempo de desobedecer a uma Europa que só serve
para nos punir e quem acha que mais esvaziamento das autonomias dos Estados é a
solução. Somar forças é imperativo diante do rolo compressor da austeridade sem
fim. Mas iludir os eleitores sobre um programa, a pretexto de uma unidade
aritmética que permita uma eleição associada a um inaceitável "e depois
logo se vê", seria pior a emenda do que o soneto.
Os equívocos desfazem-se
começando por respeitar integralmente os percursos feitos e os seus adquiridos.
Os que fazem a história de cada esquerda tanto quanto os que levaram à Aula
Magna, ao Congresso Democrático das Alternativas e sobretudo às contestações
gigantescas nas ruas e praças. Mais do que tudo, os equívocos combatem-se
juntando vozes e forças à volta de um programa claro que mostre como resgatar a
democracia e a autodeterminação e que diga que para isso é preciso pôr a
renegociação da dívida no centro de tudo e revogar o pacto orçamental europeu.
Só um acordo programático assim poderá ser o alicerce sólido do edifício da
convergência destas esquerdas para responder às necessidades de alternativa
política para Portugal. A apresentação dessa proposta pelo Bloco de Esquerda
aos promotores do Manifesto 3D, concretizável sob a forma que melhor
respeitasse as decisões desse importante coletivo sobre a sua configuração política,
abre caminho para esse passo que falta dar. Vale a certeza de que esse passo só
será dado e só vingará se não for o resultado de ultimatos nem da cedência ao
desespero mas da coragem de afirmar em conjunto uma proposta de rutura com esta
política e com qualquer forma de rotativismo. Que ele não tenha sido dado agora
não apaga a expectativa de que se possa dar proximamente.» – José Manuel Pureza,
no
DN.
