«O ministro da Solidariedade,
Emprego e Segurança Social afirmou que "é sintomático" que quem
defendia que Portugal ia precisar de um segundo resgate diga hoje que o país
tem de terminar o programa "de forma limpa, sem cautelar"», lê-se no
I. Eles lá vão comandando a agenda mediática como querem e lhes apetece.
Primeiro foi o segundo resgate que tinham que evitar. Depois, os resultados teimaram
em revelar-se uma catástrofe que se foi agigantando, enquanto a UE nada fazia para "acalmar" os
mercados, e lembraram-se de vestir o segundo resgate de "cautelar" sem
nunca dizerem concretamente qual a diferença entre os dois. Finalmente, a saída
já poderia ser "à Irlandesa e, entretanto, mudaram-lhe o nome para " "saída
limpa". E o país sempre a definhar, com uma dívida cada vez maior, cada vez
mais impagável com a actual arquitectura do euro. Sintomático é que não haja um
único partido que fale sequer em sermos obrigados a sair de um euro que, pela mão
do arco da finança, nos vai condenando
a doses de austeridade reforçadas a cada ano que passa e, nessa medida, nos empurra
para trás e nos obriga a percorrer o caminho do progresso que até aqui nos trouxe
no sentido inverso. Sintomático é não discutirmos se devemos ou não permanecer no
euro. Sintomático de um país sem uma esquerda realmente esquerda, organizada e à
altura do momento histórico que vivemos,
capaz de mostrar que não existe apenas para colorir a paisagem. Segundo "resgate",
"plano cautelar" ou "saída limpa"? Tanto faz. Estamos tramados
à mesma. A austeridade e a sua irmã gémea agenda de reconfiguração social vieram para ficar. Para memória futura, o tema que alimenta aceso debate público no momento em que escrevo estas linhas é "praxe e suas degenerações".
