Como pode ler-se abaixo, a aventura
3D terminou tal como começou, por iniciativa dos próprios. Não há convergência possível
quando uma das partes, ainda por cima aquela que formalmente não existe, propõe
à outra que prescinda da sua existência a seu favor. A impossibilidade completa-se
quando, a juntar ao primeiro absurdo, se verifica que à frente de uma convergência
que servisse o objectivo de unir as esquerdas está a carreira política de alguém
que comprovadamente tem facilidade em rasgar o contrato eleitoral que se estabelece
pelo voto entre eleitos e eleitores. Entre o 3D e o Livre, o 3D escolheu o Livre.
A direcção do Bloco limitou-se a recusar o inaceitável. E saíram todos, saímos todos
a perder.
Em declarações Ao Esquerda.net,
João Semedo, coordenador do Bloco de Esquerda, explicou que, numa reunião
realizada no dia 11 de Janeiro, os promotores do Manifesto 3D apresentaram duas
possibilidades para concretizar a convergência eleitoral de Bloco de Esquerda,
Renovação Comunista, o proto-Partido Livre e os promotores do Manifesto 3D. A
primeira era a criação de um “partido-envelope” para uma candidatura conjunta.
“Caberia ao Bloco de Esquerda apoiar a legalização de um novo partido,
recolhendo assinaturas e abdicando de uma candidatura própria”, explica João
Semedo. A hipótese alternativa era uma coligação entre o Bloco e o Partido
Livre, se constituído entretanto.
O Bloco de Esquerda explicou que não podia
considerar estas hipóteses e abriu a possibilidade de outro caminho. “Recusámos
uma hipotética coligação com o Partido Livre por considerar que esta iniciativa
de Rui Tavares tem como património político essencial a orientação do seu
mandato no Parlamento Europeu, e este mandato foi desenvolvido no grupo dos
Verdes Europeus, que apoiou o Tratado Orçamental europeu”, disse João Semedo.
De facto, Rui Tavares aprovou, por exemplo, o visto prévio aos orçamentos
nacionais, afirmando-se como aberto defensor do projecto federalista, ao qual o
Bloco se opõe desde sempre. João Semedo chamou a atenção para o facto de ter
sido Rui Tavares a afastar-se do espaço político da Esquerda Europeia ao deixar
o grupo de eurodeputados do Bloco e ao integrar os Verdes Europeus.
João Semedo explicou ainda que "a
proposta do partido-envelope significaria fazer desaparecer o Bloco nas
europeias a favor de um novo partido a formar, do qual os membros do Bloco
estariam excluídos porque a dupla filiação é proibida por lei, e cujo destino
pós-eleitoral seria uma incógnita”. De resto, esta opção “implicaria um mandato
democrático do partido que só uma Convenção Nacional poderia conferir”.
Em alternativa, na reunião de 11 de Janeiro,
a delegação do Bloco de Esquerda propôs aos representantes do Manifesto 3D que
fossem dados “passos imediatos para um acordo político em torno de uma
plataforma programática e de um compromisso de candidatura”, que resultaria
numa coligação, se o 3D optasse pela constituição em partido, ou na
participação do 3D na lista do Bloco, podendo ainda ser alargado a outros
parceiros por acordo mútuo entre Bloco e 3D. Em resposta, a Comissão
Coordenadora do Manifesto 3D anunciou em comunicado que não foi possível
encontrar uma solução "que correspondesse aos objectivos do Manifesto 3D”,
apesar de constatar a concordância de princípio com a “necessidade da
convergência nesta área política e com as questões programáticas essenciais
constantes no Manifesto 3D, expressa por todos os interlocutores”.