Quando era deputado, o secretário de Estado da
Segurança Social, Agostinho Branquinho, foi uma peça chave
no licenciamento de um hospital privado em que uma denúncia de corrupção foi
usada como instrumento de pressão. A actividade, exercida em paralelo com a de
deputado, alegadamente de “consultoria, nunca foi declarada no registo de
interesses da Assembleia da República nem no Tribunal Constitucional, como a
lei impõe. A embrulhada entretanto foi parar à Justiça sem vestígios de Branquinho,
que nunca foi ouvido na fase de investigação, e não foi incluído nos autos nem
mesmo depois da insistência do advogado de dois dos arguidos no processo no
sentido de esclarecer em que moldes se processou a alegada “consultoria”: o
juiz de instrução ignorou o pedido de inquirição. A notícia é fruto de mais um
excelente trabalho jornalístico de
José
António Cerejo e surge dias depois de uma reportagem da SIC sobre negócio
semelhante, num momento em que
toda a espécie de racionamentos no SNS produz um
autêntico inferno nos hospitais e centros de saúde de Norte a Sul de Portugal.
É sobre este sofrimento que prosperam os negócios da Saúde privada. Apenas
escapa quem pode pagar.
Vagamente
relacionado: o estudo “Governar para as Elites – Sequestro Democrático e
Desigualdade Económica”, divulgado esta segunda-feira pela organização
humanitária Oxfam, conclui que a riqueza concentrada nas mãos das 85 pessoas
mais ricas do mundo equivale aos recursos da metade mais pobre da população
mundial (3600 milhões de pessoas). O documento pretende ser um alerta para os mais ricos e poderosos do
mundo. O poder económico e político está “a separar cada vez mais as pessoas”,
o que torna inevitáveis “as tensões sociais e o aumento do risco de ruptura
social”, sublinha a Oxfam, segundo a qual quase metade da
riqueza mundial está nas mãos de apenas 1% da população. São cerca de 110.000
milhões de euros, um valor que é 65 vezes maior do que o total de recursos de
que dispõe a metade mais pobre da população. A organização revela que sete em
cada dez pessoas vivem em países onde a desigualdade económica aumentou nos
últimos 30 anos e que o peso dos rendimentos do 1% mais rico da população nos
rendimentos totais dos seus países cresceu em pelo menos 24 dos 26 Estados para
os quais dispõe de dados. Esta tendência crescente de concentração de riqueza é
notória “mesmo em países considerados mais igualitários, como a Suécia e a
Noruega”. Em Portugal, à semelhança dos Estados Unidos e da China, o peso dos
rendimentos dos mais ricos no rendimento total do país mais que duplicou desde
1980, “e a situação tem vindo a piorar”, lê-se no relatório.