«O acordo ortográfico é uma
decisão política e como tal deve ser tratado. Não é uma decisão técnica sobre a
melhor forma de escrever português, não é uma adaptação da língua escrita à
língua falada, não é uma melhoria que alguém exigisse do português escrito, não
é um instrumento de cultura e criação. É um acto político falhado na área da
política externa, cujas consequências serão gravosas principalmente para
Portugal e para a sua identidade como casa-mãe da língua portuguesa. Porque, o
que mostra a história das vicissitudes de um acordo que ninguém deseja, fora os
governantes portugueses, é que vamos ficar sozinhos a arcar com as
consequências dele.
O acordo vai a par do crescimento
facilitista da ignorância, da destruição da memória e da história, de que a
ortografia é um elemento fundamental, a que assistimos todos os dias. E como os
nossos governantes, salvo raras excepções, pensam em inglês “economês”,
detestam as humanidades, e gostam de modas simples e modernices, estão bem como
estão e deixam as coisas andar, sem saber nem convicção.
(...)
Aos políticos que decidiram
implementá-lo à força e “obrigar” tudo e todos ao acordo, de Santana Lopes a
Cavaco Silva, de Sócrates a Passos Coelho, e aos linguistas e professores que
os assessoraram, comportando-se como tecnocratas – algo que também se pode ter
do lado das humanidades, normalmente com uma militância mais agressiva até
porque menos "técnicas" são as decisões –, há que lembrar a frase de
Weber que sempre defendi como devendo ser inscrita a fogo nas cabeças de todos
os políticos: a maioria das suas acções tem o resultado exactamente oposto às
intenções. O acordo ortográfico é um excelente exemplo, morto pelo “ruído” do mundo. O acordo ortográfico nas
suas intenções proclamadas de servir para criar uma norma do português escrito,
de Brasília a Díli, passando por Lisboa pelo caminho, acabou por se tornar
irritante nas relações com a lusofonia, suscitando uma reacção ao paternalismo
de querer obrigar a escrita desses países a uma norma definida por alguns
linguistas e professores de Lisboa e Coimbra.
(...)
Está na hora de acabar com o
acordo ortográfico de vez e voltarmos a nossa atenção e escassos recursos para
outros lados onde melhor se defende o português, como por exemplo não deixar
fechar cursos sobre cursos de Português nalgumas das mais prestigiadas
universidades do mundo, ter disponível um corpo da literatura portuguesa em
livro, incentivar a criatividade em português ou de portugueses e promover a
língua pela qualidade dos seus falantes e das suas obras. Tenho dificuldade em
conceber que quem escreve aspeto – o quê? – em vez de aspecto, em português de
Portugal, o possa fazer.» – Pacheco Pereira, artigo completo aqui.
