Este que lêem é e não é sobre a
Arábia Saudita, onde a Comissão para a Promoção da Virtude e Prevenção do Vício
acaba de criar mais uma proibição para as mulheres: andar de baloiço. Segundo
aquele órgão, tal prática pode incitar os homens a
cometerem abusos sexuais. Também é não é sobre a Hungria, onde dormir
na rua passou recentemente a ser crime. Nem apenas sobre a Espanha, onde o
sol foi privatizado, protestar não tardará a valer multas
até 600 mil euros e o aborto clandestino está
prestes a voltar a ser imposto às espanholas com menores recursos. Estas
linhas são sobre o que pode acontecer a um país quando perigosos criminosos chegam ao poder
e descobrem que podem dissimular os seus crimes atrás de uma máscara de
moralidade que põe em causa os direitos humanos mais elementares.
Como é também o caso do direito
de qualquer criança a ter uma família. Fabíola Cardoso, 41 anos, casada, é mãe
de duas dessas crianças. A sua angústia sobre o que lhes poderá acontecer
depois da sua morte aumentou substancialmente há uns meses, quando lhe foi
diagnosticado cancro da mama. O Estado português não reconhece quaisquer
direitos à sua cônjuge, que os seus filhos reconhecem como a sua outra mãe mas que não pode protegê-los enquanto tal, a coberto da Lei. A
Fabíola foi hoje ao Parlamento assistir a como uma maioria de moralistas
brincava com a sua dignidade e com o direito dos seus filhos a serem adoptados
pela segunda mãe. Saiu de lá com a tranquilidade adiada.
E viu de tudo. Deputados sem pejo
algum em votarem a favor de um referendo que engendraram como manobra de diversão
e conscientes de que dificilmente acontecerá. Deputados
sem vergonha nenhuma de se declararem contra a aberração de um direito
fundamental ser posto a referendo para depois votarem a favor da sua realização.
Dois porquinhos que se abstiveram, com toda a certeza por não serem nem a favor
nem contra, tanto se lhes dá. E deputados que deram o seu voto para evitar
esta página negra na História da nossa democracia, mas que nada puderam fazer por
estarem em minoria.
Não ,
desta vez não foi na Arábia Saudita, nem na Hungria, nem na Ilha de Cornos que
os moralistas brincaram com os direitos de uma minoria para desviarem asatenções dos seus negócios esconsos e das vidas que continuarão a destruir com
uma austeridade à prova de referendo. Desta
vez foi mesmo em Portugal. Aqui. É capaz de ser connosco.
(editado)
(editado)
