sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

120 mil tretas



120 mil novos empregos, repete o Governo.  Perto de um milhão de portugueses trabalhava dez ou menos horas por semana no terceiro trimestre de 2013, um universo que disparou para o dobro de Junho para Setembro, meses em que o total de trabalhadores com empregos de uma a 10 horas semanais passou de 450 mil para 915 mil.  No 3.º trimestre foram destruídos 404 mil empregos com horários acima de 11 horas/semana e criados 465 mil postos de menos de 10 horas. É nestes empregos que reside a recuperação do mercado do trabalho que o governo tanto saudou recentemente. Do segundo para o terceiro trimestre do ano, o total de desempregados caiu 50 mil pessoas, o que permitiu ao governo apresentar uma quebra do desemprego de 16,4% para 15,6%. Contudo, nos empregos que exigem mais de 10 horas por semana só houve destruição de postos de trabalho: nos três meses entre o final de Junho e o final de Setembro perderam-se 403,2 mil postos de trabalho que 11 ou mais horas semanais. O aparecimento de mais 464,8 mil trabalhos com horários até 10 horas semanais anulou assim o efeito que aquele ritmo de destruição de empregos teria na taxa de desemprego, conseguindo mesmo baixá-la, servindo também para o governo apresentar os números como sinal do sucesso do programa de ajustamento que superou as piores previsões. Caso juntemos o total de desempregados a este grupo de trabalhadores que não conseguem empregos com horários que permitam um salário decente, encontramos 32,5% da população activa residente em Portugal – 839 mil desempregados e 915 mil trabalhadores com não mais de 10 horas por semana, sobre 5,39 milhões de população activa. No segundo trimestre deste ano, a taxa estava nos 24,8% – 886 mil desempregados e 450 mil empregados com não mais de 10 horas de trabalho (leia-se, remuneração) por semana. Um terço da população activa ou está desempregada, ou tem um emprego de 10 ou menos horas semanais. (Filipe Paiva Cardoso)

Gostei de ler: "O que há para desbloquear"


«Há tempos, Pacheco Pereira confessava-se membro de uma espécie em vias de extinção no PSD: os sociais-democratas. Os sorrisos que então provocou podem denunciar algum nervoso. Porque o risco de extinção dos verdadeiros sociais--democratas, se nunca foi um problema para o PSD, é hoje o maior problema de identidade do Partido Socialista. Quando a direção do PS exibiu convicção e entusiasmo na aceitação da proposta da direita de que Portugal fosse o primeiro país a aprovar o Pacto Orçamental, foi esse afastamento radical da matriz fundadora social- -democrata que se evidenciou plenamente.
A cooptação dos partidos socialistas, trabalhistas e sociais-democratas europeus, talhados nas lutas sindicais contra a exploração do trabalho, pela onda neoliberal que, desde a década de oitenta, fez das universidades europeias e norte- -americanas o trampolim para a tomada do poder político e empresarial pôs fim à relação de forças que permitiu a afirmação do Estado de bem-estar como marca da Europa no segundo pós-guerra. O blairismo, replicado por Schroeder na Alemanha ou por Guterres em Portugal, esterilizou as formações sociais-democratas como alternativas políticas efetivas e converteu--as aos cânones do centrismo político, do ponto de vista ideológico e do ponto de vista programático. E essa conversão não foi repudiada desde então.
É da consciência do carácter nevrálgico desta realidade e das suas consequências que tem de partir todo o esforço de construção de uma alternativa política em Portugal e na Europa. A questão crucial que esse esforço tem de enfrentar é a da opção reiterada do Partido Socialista por se assumir, acima de tudo, como integrante de um arco da governação que baliza a política prática com limites caros à direita. Se há fator de bloqueio à esquerda que dificulta uma governação alternativa, em Portugal e na Europa, é essa opção das direções dos partidos socialistas, em Portugal como na Europa, por uma governação pautada pelos critérios de "estabilidade", "responsabilidade" e de "razoabilidade" partilhados serenamente com a direita. Na construção de propostas políticas não vale a dicotomia entre puros e impuros, entre anjos e diabos, é bem verdade. Mas distribuir indiferenciadamente por toda a esquerda a responsabilidade das dificuldades de construção de uma alternativa - ou inclusivamente focá-la privilegiadamente na esquerda à esquerda do PS - é algo que distorce a realidade. Não foi a esquerda que empurrou o Partido Socialista para a aprovação do Pacto Orçamental, para a aprovação do Código do Trabalho, para a escolha da diminuição do subsídio de desemprego como medida emblemática do PEC 1, ou para a inclusão da privatização dos CTT no PEC 4. O seu a seu dono. Desculpabilizar deste modo as lideranças socialistas e responsabilizar a esquerda à esquerda do PS por aquilo que é uma escolha consciente e livre daquelas lideranças é algo que só ajuda a que tudo fique na mesma.
Todos os sectarismos e paroquialismos são condenáveis diante do imperativo da construção de uma política diferente para o País e para a Europa. Por isso mesmo, nunca uma iniciativa de esquerda vinda do Partido Socialista, no Governo ou na oposição, deixou de fazer caminho por não ter o apoio das esquerdas. Se o que decidisse o desbloqueamento da alternativa necessária fosse a disponibilidade para governar, a questão seria bem simples, portanto. Mas não: aquilo que verdadeiramente bloqueia uma alternativa de governo à esquerda não é a disponibilidade, ou falta dela, para governar. São as escolhas para a governação de Portugal e da Europa. É a clarificação disso e das suas condições de viabilidade que se exige.» - José Manuel Pureza, no DN.