Os dias do sucesso. Servido a
rodos, num caudal impossível de rebater, alucinogénico. Olhamos para as
televisões e jornais e a palavra aparece, repetida, insistente, impiedosa:
sucesso. Olhamos à nossa volta e duvidamos da miséria, da desesperança, do desemprego
e da desumanidade que testemunhamos com os nossos olhos, sem o auxílio das
lentes de uma máquina fotográfica gigantesca que reduz tudo a um sucesso
retumbante e inequívoco. O que vemos é cada vez mais diferente do que nos põem
a ver.
Ajustamento. Anteontem, assim
como quem não quer a coisa, assim como se não tivesse importância alguma, assim
como se em nada estivesse relacionado com o desajustamento de salários
cada vez mais mínimos, de contratos cada vez mais curtos e de um desemprego
em máximos a obrigações de crédito cujo cumprimento requer o emprego, os
salários e a estabilidade que o “sucesso do ajustamento” pulverizou, ficámos a
saber de novos recordes no crédito malparado, com especial destaque para o novo
máximo nos incobráveis no crédito
à habitação. Em Setembro passado, mais
de 124 mil famílias portuguesas tinham a prestação da casa em atraso. No
total, no final de Novembro, os bancos tinham em carteira 17,4 mil milhões em incobráveis. Preocupante ?
Sucesso é sucesso. Ajusta-se de outra maneira.
Hoje, alegadamente para
aproveitar os “bons ventos que sopram nos mercados”, o Governo português
decidiu emitir entre 2 e 2,5 mil milhões de euros em dívida pública. Há pouco,
a operação já aparecia na imprensa como um sucesso
espectacular. Taxa de juro estimada para a operação: 4,6%, fora comissões a
pagar aos incontornáveis Goldman Sachs, HSBC, Morgan Stanley, Barclays, Caixa
BI e Societe Generale. 4,6% que superam em mais de 1% os juros impagáveis do
empréstimo contraído junto da troika. E 4,6% que são 18,4 vezes os 0,25%que o
BCE cobrou pelos milhões que emprestou aos bancos que se acotovelam para, com esses milhões, entrarem
num negócio em que compram a 25 e vendem a 460, uma diferença que o
ajustamento dos nossos impostos e serviços públicos irá pagar (diferença de 4,35% a multiplicar por
2,5 mil milhões gera um proveito anual de 108,75 milhões de euros).
Do mesmo
ajustamento: o hospital Amadora-Sintra
abriu um inquérito sobre uma das muitas “poupanças” na Saúde que estão a condenar à morte um número
indeterminado de portugueses. Apenas os casos mediatizados são alvo de inquérito. Os Governos decidiram poupar centenas de euros em cada colonoscopia para gastarem largos milhares em quimioterapia. Duplo crime.
Ajustando ainda mais um pouco: o Governo aprovou nesta Quinta-feira novo aumento de um imposto permanente e nada solidário sobre os reformados, a que decidiu chamar “contribuição extraordinária de solidariedade”, e aumentará, também novamente, os descontos dos funcionários públicos para a ADSE, alegadamente para equilibrar as contas de um subsistema de Saúde que não é deficitário.
Ajustando ainda mais um pouco: o Governo aprovou nesta Quinta-feira novo aumento de um imposto permanente e nada solidário sobre os reformados, a que decidiu chamar “contribuição extraordinária de solidariedade”, e aumentará, também novamente, os descontos dos funcionários públicos para a ADSE, alegadamente para equilibrar as contas de um subsistema de Saúde que não é deficitário.
Bastante mais
ajustado ainda: Ao contrário do que tem sucedido desde 2002, os casos de
tuberculose registaram pela primeira vez em 10 anos um
ligeiro aumento no ano passado, levando os especialistas a prever uma maior
dificuldade do controlo da doença no futuro. A tuberculose é uma doença associada
à sub-nutrição que se previne com rastreios que deixaram de fazer-se. “Poupanças”.
