Eusébio deixou o mundo dos vivos nesta
madrugada e irá juntar-se aos nossos imortais Amália, Saramago, Salgueiro Maia,
Cunhal e tantos outros. Vou evitar entrar em comparações entre as honrarias que
lhe serão prestadas no momento da sua morte e aquelas que foram recusadas a alguns
dos restantes que enunciei. Eusébio merece
as suas e é completamente alheio aos rancores que os homens pequeninos dispensaram
aos outros gigantes. Para além disso, ele próprio sofreu em vida a capitalização política da sua genialidade por Salazar, aproveitamento esse replicado hoje por Cavaco e seus rapazolas,
falha sua nunca os ter retratado. Socorrendo-me de alguns parágrafos da excelente
mini-biografia que nos é oferecida pelo Público,
Prefiro relembrar o grande futebolista que foi, o grande benfiquista que foi e alguns traços de
uma personalidade que já era grande ainda o Eusébio não era o Eusébio que será para
sempre. O nosso Eusébio, sempre nosso. Até sempre, Pantera Negra.
Basta dizer um número: 546, os golos que
marcou pela selecção portuguesa e ao serviço dos clubes por que passou. Pelo
Benfica, foram 473 em 440 jogos oficiais. Mais números: sete vezes o melhor
marcador do campeonato português, três vezes o melhor marcador da Taça dos
Campeões. Cometeu a proeza de marcar 32 golos em 17 jogos consecutivos, tendo
ainda conseguido marcar seis golos no mesmo jogo em três ocasiões. O
guarda-redes que mais golos seus sofreu foi Américo, do FC Porto (17).
Foi na Mafalala que conheceu a sua primeira
equipa, “os Brasileiros”, “um clube de pés-descalços” em que os jogadores
adoptavam nomes dos craques brasileiros. Eusébio era Pelé, ano e meio mais
velho que o moçambicano. (...) Mas onde Eusébio queria jogar era no Desportivo
de Lourenço Marques, filial do Benfica, clube do qual o pai era adepto. No
Desportivo não o aceitaram porque era “franzino, pequenino”. Também no
Ferroviário o recusaram. O mesmo erro não cometeu o Sporting de Lourenço
Marques, filial moçambicana do Sporting Clube de Portugal, que ficou com ele de
imediato, depois de ter ido fazer testes com um grupo de rapazes do bairro. Mas
Eusébio impôs uma condição: ou ficam todos, ou não fica nenhum. Ficaram todos. Eusébio
acabou por ir contrariado para os “leões” de Lourenço Marques. “Ninguém do meu
bairro gostava do Sporting. Porque era um clube da elite, um clube da polícia,
que não gostava de pessoas de cor”, contou mais tarde. Começou nos juniores,
passou rapidamente para os seniores e estreou-se contra o “seu” Desportivo. Não
queria jogar, mas jogou. Marcou três golos e chorou. Tinha 17 anos. O Sporting
foi campeão regional com 30 remates certeiros de Eusébio, a quem o clube tinha
arranjado um emprego como arquivador numa empresa que fabricava peças para
automóveis.
No Beira-Mar, Eusébio teve o seu último
contacto com o principal escalão do futebol português. Dois momentos são
importantes nesta breve passagem por Aveiro. Quando defrontou o rival Sporting
e o seu clube do coração, o Benfica. Foi contra os “leões” que marcou, a 6 de
Março de 1977, o seu último golo na primeira divisão, confirmando o Sporting (a
par do Belenenses) como a maior “vítima” dos seus remates certeiros, 24. Dois
meses antes, tinha defrontado as “camisolas berrantes”, como lhes chamava Luís
Piçarra na canção que serve como hino das “águias”. Tal como acontecera 20 anos
antes em Lourenço Marques, Eusébio tinha de jogar contra si próprio. A 5 de
Janeiro de 1977, Eusébio-Benfica, no Estádio Mário Duarte, em Aveiro, a contar
para a 12.ª jornada do campeonato. Eusébio não iria ser profissional. “Já tinha
avisado o treinador do Beira-Mar, o Manuel de Oliveira, que não ia rematar à
baliza. Quinze minutos antes do jogo, fui ao balneário do Benfica e avisei para
que não se preocupassem, pois não ia marcar golos. [No jogo] não rematei, não
marquei faltas nem grandes penalidades. Andava lá no campo só a passar a bola
aos outros.” Com o jogo empatado 2-2, o Beira-Mar beneficia de um livre à
entrada da área que seria mesmo ao jeito de Eusébio. Mas o “Pantera Negra”
recusou-se a marcar.

