Os lobos atacam, os coelhinhos
encolhem-se, prossegue o terror. Desta vez, como vimos no post anterior, os
lobos até sondaram os coelhinhos para saberem onde atacar. E atacaram
aí. O Governo anunciou no princípio da noite de ontem que irá compensar o
ataque abortado pelo TC às pensões de reforma da CGA alargando a “ base de
incidência da denominada “contribuição extraordinária de solidariedade” e aumentando
mais uma vez os descontos para a ADSE aos funcionários públicos.
Como e Quem para parar o terror?
Todos aqueles mais
de 40% que a sondagem revelou preferirem qualquer penalização de terceiros
desde que esta não os afecte directamente ainda estarão a respirar de alívio
com a notícia de que nem o IVA nem os combustíveis irão aumentar: o Governo
fez-lhes a vontade. Não há que contar com eles.
Entre os
directamente afectados por mais esta machadada, os reformados pouco mais
poderão fazer do que um ruído que apenas teria consequências numa sociedade em
que os valores da solidariedade e do respeito por direitos adquiridos ao longo
de uma vida inteira a trabalhar estivessem presentes, o que definitivamente não
é o caso da nossa. Os funcionários públicos, que têm demonstrado ser uma massa
amorfa sem capacidade para mais do que greves de apenas um dia, depois de
permitirem cortes salariais que chegam aos 12%imediatamente a seguir a verem-se
obrigados a trabalhar gratuitamente mais uma hora por dia sem esboçarem um ai,
mostraram ao Governo que pode continuar a contar com eles para o papel de
bombos da festa. Mais 1% de corte no salário não será nada que dentro de muito pouco
tempo a grande maioria não duvide se não terá sido sempre assim.
O Presidente da
República está-se nas tintas para tudo e para todos fora do polígono cujos
vértices são ele próprio, o Governo, a maioria, a troika, a delinquência
banqueira, os interesses dos grandes grupos económicos, as vaquinhas e as
cagarras. Ah, e o Cristiano
Ronaldo.
O PS agradece
mais uma medida impopular que não terá que tomar quando for Governo para
atingir a meta dos 0,5% do PIB como tecto para o défice orçamental, a
ultra-austeridade que ajudou a aprovar na Assembleia da República e que continuará a pôr em prática quando o poder
lhe cair nas mãos novamente.
PCP e Bloco,
cada um à sua maneira, são duas conchas impermeáveis a qualquer solução que
obrigue a alterações nas lógicas internas dos partidos que tanto gostam de ser
e que a grande maioria dos portugueses não gosta que sejam.
O Tribunal
Constitucional espera pelo consenso que sairá das próximas eleições, isto é, pelo acordo entre PSD e PS sobre uma revisão constitucional
que dê menos trabalho aos seus juízes.
E mais de 60%
da população olha para tudo isto tranquilizando os terroristas reafirmando a sua
firme intenção de continuar sem contar para nada: não votam nem saem de cima.
Concluindo: são apenas mais dois pequenos
cortes. Podiam ser maiores? Podiam. As reacções seriam exactamente as mesmas. Por
essa precisa razão, também não serão os últimos. Definitivamente, o terror encontrou
o lugar certo para passar uma temporada. E não estou a dar novidade nenhuma. Nada
mudará enquanto os portugueses não quiserem mudar-se. Os terroristas não encontram
barreiras, avançam.
