A Pitagórica perguntou, o I
publicou. Primeira pergunta: concorda com o chumbo do TC à intenção do
Governo de roubar parte das pensões de reforma aos antigos funcionários
públicos? Menos de metade concorda (49,9%). Segunda pergunta: prefere que o
Governo reparta os sacrifícios por todos e aumente o IVA ou o imposto sobre os
combustíveis ou prefere ficar de fora desses sacrifícios e que o Governo
insista em ir ao bolso aos velhotes? 41,6% respondeu preferir que os velhos
paguem por todos. Repare-se como, por exemplo, a tributação das grandes
fortunas, a redução das rendas das PPP e dos monopólios da energia e dos
combustíveis ou o aumento do IRC às grandes empresas, recentemente reduzidas
por PSD, PS e CDS, ficaram de fora das opções de resposta dadas a um universo
de inquiridos que, seja lá como for, deixou um forte sinal sobre o valor da
solidariedade na sociedade portuguesa dos dias que correm.
E cá estamos nós em 2014, com o poder
político e os média que este tem ao seu dispor a invocarem um alegado estado de excepção à democracia e a conseguirem potenciar o pior que há em cada um de nós,
ou pelo menos numa parcela bastante significativa do todo que deixámos de ser. Sobre
o perigo destas excepções e sobre a colaboração da comunicação social neste processo
anti-democrático falou por estes dias a historiadora Irene Pimentel numa conferência
que decorreu no Tarrafal, Ilha de Santiago, Cabo Verde: "estamos
em transformação, sem quase darmos por isso, de uma democracia para ditaduras.
Por exemplo, hoje em dia, não é preciso na Europa, ou em Portugal, instaurar a
censura tal como ela existia na ditadura. Basta controlar os «mass media», pôr
os jornalistas a ganharem pouco, a estarem disponíveis para tudo, etc, e, de
repente, temos um pensamento único, sob a capa da pluralidade".
Sobre outro vértice desta mesma
questão escreveu Daniel Oliveira, "o
desamparo aprendido dos portugueses", um texto que é leitura
obrigatória: "O psicólogo Martin Seligman desenvolveu, no final dos anos
60, uma experiência um pouco sádica mas muitíssimo interessante. Para ela usou
dois grupos de cães. Explicado de forma tosca, o primeiro grupo de cães recebeu
choques eléctricos, tendo a possibilidade de se livrar do sofrimento, coisa que
rapidamente aprendeu a fazer. Um segundo grupo foi sujeito ao mesmo tratamento
doloroso. Com uma diferença: aos cães era retirada a possibilidade prática de
evitar essa dor. Naturalmente, porque têm capacidade de aprender com a repetição,
a dada altura os animais deixavam de tentar fugir. Limitam-se a aguentar,
estoicamente, o sofrimento que lhes era infligido. Numa segunda fase, os
mesmíssimos cães, depois de sujeitos a esta aprendizagem - a de se libertarem dos
choques eléctricos e a de aguentarem sem reacção esse inevitável sofrimento -,
são postos nas mesmas condições: ambos se podem livrar do sofrimento. O
primeiro grupo faz o que fazia antes: reage de forma a deixar de ser torturado.
O segundo grupo, apesar das novas condições, também faz o que fazia antes:
aguenta, apesar de poder fugir, a dor que poderia, afinal, evitar. E fica a
apanhar os choques eléctricos como se não tivesse alternativa. Porque foi isso
que aprendeu."
