quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Sobre as artes de um Governo que brinca com a fome do seu povo


As instituições internacionais já há algum tempo andavam a olhar para as estatísticas do emprego com alguma desconfiança e até incredulidade. Reconheciam que a evolução do mercado de trabalho estava a superar o que seria expectável face ao desempenho da economia. Em Novembro, numa entrevista ao Jornal de Negócios, o responsável do FMI Subir Lall chegou a afirmar: "Ninguém percebeu como é que o desemprego está a baixar." Mas a verdade é que os números do INE teimavam em contrariar as folhas de Excel da troika, com os dados do Instituto de Estatística a apontarem para um crescimento homólogo de 6% do trabalho por conta de outrem no terceiro trimestre deste ano.

Nesta quarta-feira, o Banco de Portugal deu um contributo decisivo para desvendar o mistério. Segundo uma análise do banco central, existem diferenças metodológicas que contrariam as estatísticas do INE e que levam a concluir que, para o mesmo período de análise, o emprego por conta de outrem no privado cresceu apenas 2,5%, muito longe dos 6% estimados pelo Instituto de Estatística.

Mais do que fazer contas à dimensão de crescimento do emprego, a análise do Banco de Portugal acaba por questionar a própria qualidade dessa criação de emprego, já que, segundo a instituição liderada por Carlos Costa, um terço do emprego criado tem a ver com os cerca de 60 mil estágios profissionais que foram lançados pelo Governo. O resto do milagre da redução da taxa de desemprego passa pelos mais de 263 mil trabalhadores que trabalham a meio tempo e que gostariam de ter um emprego com horário completo mas que não conseguem encontrar o que não existe, pelos desencorajados que, confrontados com a mesma inexistência, ao deixarem sequer de procurar, foram arrumados pelas estatísticas na categoria dos inactivos e, claro, pelos mais de 300 mil que a mesma inexistência empurrou para a emigração. A CGTP estima que no final do segundo semestre a taxa real de desemprego era de cerca de 23%, quase 10%acima do valor oficial.

2 comentários:

fb disse...

Um terço do emprego criado tem a ver com os cerca de 60 mil estágios profissionais que foram lançados pelo Governo. O resto do milagre da redução da taxa de desemprego passa pelos mais de 263 mil trabalhadores que trabalham a meio tempo e que gostariam de ter um emprego com horário completo mas que não conseguem encontrar o que não existe, pelos desencorajados que, confrontados com a mesma inexistência, ao deixarem sequer de procurar, foram arrumados pelas estatísticas na categoria dos inactivos e, claro, pelos mais de 300 mil que a mesma inexistência empurrou para a emigração. A CGTP estima que no final do segundo semestre a taxa real de desemprego era de cerca de 23%, quase 10%acima do valor oficial.

Anónimo disse...

boa tarde. Não esquecer que milhares de pessoas frequentam formações, patrocinadas pelos centros de emprego, que encaram os formandos como se fossem trabalhadores, pagos a 150 ou 200 euros mensais, por sete horas diárias de formações, que ditarão, ou não,certificações. È um "jogo de cintura" para fazer baixar as estatísticas do desemprego.