quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Se dois ilibados incomodam muita gente, três ilibados incomodam muito menos



Perdemos outra vez. Cada um de nós e a democracia. A corrupção beneficia de legislação que faz prescrever processos ao fim de determinado prazo. A Justiça, limitada pela crónica falta de meios que se vem acentuando nestes anos de chumbo e tolhida não poucas vezes por mãozinhas tão poderosas como gulosas pelo que é de todos, embaraça-se num emaranhado legislativo tecido por essas mãos com uma eficácia eficientíssima se observada pelo lado da impunidade que produz e que a produz. Soube-se hoje que o processo dos submarinos, o mesmo que produziu condenações à luz da legislação alemã, por cá, mais do que produzir sorrisos nas claques dos partidos dos agora definitivamente ilibados Portas e Durão, já estava prescrito antes mesmo de ser arquivado. Porém, não é nada disto que faz tocar o realejo da claque adversária. Sim, que isto não é o Freeport, outra vergonha do mesmo gaveteiro de impunidades que a partir de agora é também a morada dos submarinos. O problema da claque rosa é o seu prisioneiro 44, vizinho de Portas e de Durão no atrás referido gaveteiro dos inocentes mas a contas com uma Justiça que, uma vez sem exemplo, não deu a Sócrates tratamento de Portas. Já que Portas não vai para Évora, ao menos que Sócrates fosse outra vez parar ao gaveteiro. Isto podia perfeitamente resolver-se a bem ainda mais uma vez.


O cancioneiro deste realejo rosa é também o tema da “carta a José Sócrates” escrita por Ricardo Araújo Pereira para a edição de hoje da revista Visão. «(…) As críticas que faz ao funcionamento da justiça parecem-me muito pertinentes. Portugal precisava que um homem como o sr. estivesse, digamos, sete anos à frente do Governo, talvez quatro dos quais com maioria absoluta, para fazer uma reforma séria do sistema judicial. É uma pena não termos essa possibilidade. Na minha opinião, os primeiros-ministros deviam ser presos antes, e não depois dos mandatos. Estagiavam durante dois meses numa cadeia, três num hospital e um semestre numa escola. O contacto directo com a realidade dá-nos perspectivas novas, mais informadas, e acirra o ímpeto reformista. Julgo que é possível estabelecer um paralelo entre o processo de Josef K., a personagem de Kafka, e o de José Sócrates, ou Josef S. - sendo que a sua história é mais complexa: tanto Josef K. como Josef S. se vêem confrontados com decisões judiciais autoritárias e, em certos aspectos, até grotescas, mas Josef K. nunca teve amigos como Alberto Martins e Alberto Costa a tutelar a justiça, nem governou o seu país. Era apenas vítima. Ser simultaneamente vítima e carrasco deve ser mais perturbador. Ao contrário do que muitas vezes se diz, Joseph-Ignace Guillotin, o inventor da guilhotina, não foi guilhotinado. Essa ironia foi reservada para si, que é agora acusado por um sistema que ajudou a conceber e conservar (…)».

1 comentário:

fb disse...

Soube-se hoje que o processo dos submarinos, o mesmo que produziu condenações à luz da legislação alemã, por cá, mais do que produzir sorrisos nas claques dos partidos dos agora definitivamente ilibados Portas e Durão, já estava prescrito antes mesmo de ser arquivado. Porém, não é nada disto que faz tocar o realejo da claque adversária. Sim, que isto não é o Freeport, outra vergonha do mesmo gaveteiro de impunidades que a partir de agora é também a morada dos submarinos. O problema da claque rosa é o seu prisioneiro 44, vizinho de Portas e de Durão no atrás referido gaveteiro dos inocentes mas a contas com uma Justiça que, uma vez sem exemplo, não deu a Sócrates tratamento de Portas. Já que Portas não vai para Évora, ao menos que Sócrates fosse outra vez parar ao gaveteiro. Isto podia resolver-se a bem ainda mais uma vez.