quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Pedro e o mexilhão (com os percebes a salvo)




Nada como convidar um génio da laracha para falar num seminário anunciado como sendo sobre economia. A laracha acaba promovida a economia. O génio da laracha acaba promovido a sábio da economia. Vá, aquela que se despromoveu ao promover-se a laracha para se promover o seu génio a entendido em economia, está bem, mas convidam-se uns parolos para animarem a coisa com palmas e umas gargalhadas alarves e a coisa passa nas televisões mesmo por seminário de economia. E o sábio por sábio. O génio do mexilhão. A economia do bivalve. O seminário aconteceu por estes dias em Braga. O génio disse, e atenção à aprumada linguagem técnica, que “ao contrário daquilo que é o jargão popular de que quem se lixa é o mexilhão”, quem contribuiu mais, em altura de crise social, “foi quem tinha mais” e não “os mesmos de sempre”. Ficámos a saber que os funcionários públicos e todos os aposentados a quem o senhor passou os últimos anos a cortar salários e reformas afinal são amêijoas. As centenas de milhar que perderam direito a prestações sociais como RSI, abono de família e subsídio de desemprego são berbigões. Os 350 mil que emigraram fizeram-no por serem as conquilhas que mais tinham. Não desapareceram mais de dez mil milhões dos orçamentos da Escola pública e do Serviço Nacional de Saúde, nem aumentaram as ajudas aos colégios privados, a saúde de mercado também não lucrou nada com o pandemónio que reina nos hospitais públicos. As rendas da energia, dos combustíveis e das PPP das auto-estradas e da Saúde não aumentaram. O IRS não subiu brutalmente ao mesmo tempo que o IRC das grandes empresas diminuía. As piranhas não engordaram como já não havia memória a engolir a multidão de desempregados que puderam contratar e despedir ao sabor de uma gula que o sábio consagrou com letra de lei como tendencialmente gratuita, com feriados a trabalhar à borla e horas extraordinárias com desconto e tudo. Os tubarões que engoliram a EDP, a REN, a ANA, os CTT, os Estaleiros de Viana  e outras pérolas que o sábio vendeu ao preço da uva mexilhona fizeram péssimos negócios. Os novos milionários não enriqueceram a comer os mexilhões que o sábio lhes serviu em bandeja de troika. Exprimindo-me na sua apuradíssima linguagem técnica, gostava que este filho de uma chaputa tivesse a coragem de dizer o que disse na feira que organizaram para lhe promover a vaidade num lugar cheio de gente, gente daquela mesmo gente, da que se sente. O bandalho sabe porque não o faz. Não saía de lá com os percebes inteiros. Chamem-lhe sábio.

1 comentário:

fb disse...

Nada como convidar um génio da laracha para falar num seminário anunciado como sendo sobre economia. A laracha acaba promovida a economia. O génio da laracha acaba promovido a sábio da economia. Vá, aquela que se despromoveu ao promover-se a laracha para se promover o seu génio a entendido em economia, está bem, mas convidam-se uns parolos para animarem a coisa com palmas e umas gargalhadas alarves e a coisa passa nas televisões mesmo por seminário de economia. E o sábio por sábio. O génio do mexilhão. A economia do bivalve. O seminário aconteceu por estes dias em Braga. O génio disse, e atenção à aprumada linguagem técnica, que “ao contrário daquilo que é o jargão popular de que quem se lixa é o mexilhão”, quem contribuiu mais, em altura de crise social, “foi quem tinha mais” e não “os mesmos de sempre”. Ficámos a saber que os funcionários públicos a quem o senhor passou os últimos anos a cortar salários e reformas afinal são amêijoas. As centenas de milhar que perderam direito a prestações sociais como RSI, abono de família e subsídio de desemprego são berbigões. Os 350 mil que emigraram fizeram-no por serem as conquilhas que mais tinham. Não desapareceram mais de dez mil milhões dos orçamentos da Escola pública e do Serviço Nacional de Saúde, nem aumentaram as ajudas aos colégios privados, a saúde de mercado também não lucrou nada com o pandemónio que reina nos hospitais públicos. As rendas da energia, dos combustíveis e das PPP das auto-estradas e da Saúde não aumentaram. O IRS não subiu brutalmente ao mesmo tempo que o IRC das grandes empresas diminuía. As piranhas não se alimentaram da multidão de desempregados que puderam contratar e despedir ao sabor de uma gula que o sábio consagrou com letra de lei como tendencialmente gratuita. Os tubarões que engoliram a EDP, a REN, a ANA, os CTT, os Estaleiros de Viana e outras pérolas que o sábio vendeu ao preço da uva mexilhona fizeram péssimos negócios. Os novos milionários não enriqueceram a comer os mexilhões que o sábio lhes serviu em bandeja de troika. Gostava que este filho de uma chaputa tivesse a coragem de dizer o que disse na feira que organizaram para lhe promover a vaidade num lugar cheio de gente, gente daquela mesmo gente, da que se sente. O bandalho sabe porque não o faz. Não saía de lá com os percebes inteiros.