sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Sobre o discurso dominante


«Somos animais sociais e a nossa identidade é formatada pelas normas e valores que absorvemos de outras pessoas. Cada sociedade define e formata a sua própria normalidade e a sua própria anormalidade ao sabor de uma narrativa dominante que tende a incluir socialmente os que a sigam e a marginalizar os que a recusem.

Hoje, a narrativa dominante é a do fundamentalismo do mercado, largamente conhecido na Europa como neoliberalismo. A estória que conta é a de que o mercado pode resolver quase todos os problemas sociais, económicos e políticos. Quanto menos o Estado nos regulamentar e taxar, melhor ficaremos. Os serviços públicos deviam ser privatizados, a despesa pública devia ser cortada e os negócios deviam ser libertados do controlo social. Nos países como o Reino Unido e os EUA, desde há 35 anos que esta estória formatou as normas e os valores: desde que Thatcher e Reagan chegaram ao poder. Está a colonizar rapidamente o resto do mundo. (...)

No centro desta estória está a noção de mérito. A competição desenfreada recompensa as pessoas que têm talento, que trabalham com afinco e que inovam. Derruba as hierarquias e cria um mundo de oportunidades e mobilidade. A realidade é um bocado diferente. Mesmo no início do processo, quando os mercados ainda não estão regulados, não se começa com oportunidades iguais. Muita gente está bem para trás quando se dá o tiro de partida. Foi assim que os oligarcas russos conseguiram alcançar essa riqueza no momento em que a URSS se decompôs. No seu conjunto, não eram as pessoas mais talentosas, esforçadas ou inovadoras, apenas as que tinham menos escrúpulos, os maiores bandidos com os melhores contactos, frequentemente no KGB.

Mesmo quando o talento e esforço justificam o que se adquiriu, isso não se mantém por muito tempo. Uma vez enriquecida a primeira geração de empresários com iniciativa, a meritocracia inicial é substituída por uma nova elite que protege os seus filhos da concorrência através da herança e da melhor educação que o dinheiro pode pagar. Onde o fundamentalismo do mercado foi aplicado mais ferozmente – em países como o Reino Unido e os EUA – a mobilidade social reduziu-se imenso.

Se o neoliberalismo não fosse mais que um conservadorismo egoísta, cujos gurus e centros de difusão desse pensamento foram financiados desde o início por algumas das pessoas mais ricas do planeta (os magnatas americanos Coors, Olin, Scaife, Pew e outros), os seus apóstolos teriam reivindicado, como pré-condição para uma sociedade baseada no mérito, que ninguém deveria iniciar a sua vida com a vantagem desleal da riqueza herdada e de uma educação determinada por recursos económicos. Mas eles nunca acreditaram na sua própria doutrina. Em consequência, a iniciativa empresarial rapidamente deu lugar às rendas. (...)» – por George Monbiot, a tradução é do Jorge Bateira (à excepção do primeiro parágrafo)

1 comentário:

fb disse...

Se o neoliberalismo não fosse mais que um conservadorismo egoísta, cujos gurus e centros de difusão desse pensamento foram financiados desde o início por algumas das pessoas mais ricas do planeta, os seus apóstolos teriam reivindicado, como pré-condição para uma sociedade baseada no mérito, que ninguém deveria iniciar a sua vida com a vantagem desleal da riqueza herdada e de uma educação determinada por recursos económicos. Mas eles nunca acreditaram na sua própria doutrina. Em consequência, a iniciativa empresarial rapidamente deu lugar às rendas. (...)» – por George Monbiot, a tradução é do Jorge Bateira (à excepção do primeiro parágrafo)