domingo, 30 de novembro de 2014

Podemos? Laicizar é preciso


Também eu, que venho acompanhando o fenómeno e me identifico com quase tudo o que propõe o Podemos espanhol, torci o nariz àquele "não somos nem de direita, nem de esquerda". Por maior sintonia que sinta por um conjunto mais ou menos numeroso de propostas, sem esse fio condutor que as ligue que é a ideologia, aquilo com que concordo à partida rapidamente resvala para os terrenos movediços desse populismo que, por mero tacticismo, primeiro diz às pessoas aquilo que elas querem ouvir para a seguir se esvaziar numa amálgama de incoerências impossíveis de sustentar.

Mas afinal que mal tem dizer às pessoas aquilo que elas querem ouvir sem cair na incoerência e sem embalar em demagogias baratas? Acabo de ler a entrevista que Pablo Iglesias deu ao esquerda.net e a questão colocou-se-me juntamente com outras. Acaso os poderosos não o fazem também? Acaso as direitas não abusam de simplificações, que ainda por cima distorcem a realidade, para tornarem o seu produto pronto a comer? Acaso não exploram os anti-corpos que vão semeando, o "não pode ser porque isso é irrealismo" que nos rouba os sonhos, o "os radicais de esquerda" e "os comunistas que comem criancinhas ao pequeno-almoço" que empurram tanta gente para o abstencionismo que se resigna ao mau com medo que possa ser ainda pior? Se quiser ser poder, por uma questão de coerência e não de mero populismo, a esquerda não pode ser escrava dos seus símbolos. E o Podemos, porque quer ser poder, não está disposto a juntar às suas propostas símbolos que afastem em vez de atraírem. Realmente, faz sentido. Os símbolos não têm que vir no pacote. A esquerda não deixa de o ser se simplificar o discurso e se  reformular a forma como comunica as suas ideias. "Laicização", é sobre isto que fala Pablo Iglésias nos excertos da entrevista que abaixo republico. Está a resultar. O Podemos soma e segue nas intenções de voto dos espanhóis. Os poderosos deixaram de dormir descansados.  


Não sei se [a fórmula] é mágica, mas há seguramente uma laicidade no Podemos no momento de enfrentar uma realidade que tem muitas particularidades próprias do caso espanhol, mas também muitas semelhanças com o que se passa noutros sítios. Isso tem a ver com uma coisa que é muitas vezes difícil de assumir por parte de certos sectores, isto independentemente do que cada um seja - e eu sou de esquerda…" (...) “É preciso assumir que há um terreno político aberto e novo em que podemos ser maioria. E que às vezes, para sermos maioria, os símbolos, as identidades, as coisas que nos fazem emocionar, podem não ser úteis para alcançar o que é importante: a mudança, a defesa dos direitos sociais e da democratização da economia.”

O segundo elemento dessa fórmula, que talvez possa ser útil para sectores da esquerda, é assumir que o terreno da ideologia é um terreno fundamental de batalha e de disputa e isso tem a ver com a comunicação e não, de novo, com a identidade. Quando vamos a um estúdio de televisão ou se prepara uma campanha de comunicação, o mais importante não é dizer “eu sou de esquerda”, mas sim disputar uma série de significantes e elementos com que boa parte das pessoas se identificam, que são justos, e têm a ver com os nossos valores.

Há uma interpretação muito incisiva do marxismo que diz que “o marxismo é uma posição moral que depois se enche de ciência”, mas o fundamental é essa posição moral ante as injustiças. O que não se pode fazer é converter a ciência em religião, em mitos, em símbolos, em bandeiras. É preciso fazer com que essa posição moral de indignação contra a injustiça, de acreditar que as coisas podem ser feitas de outra forma, num momento de crise como esta, se torne maioritária. E para converter essa maioria social em maioria política, às vezes temos de ser laicos. O espaço está aberto e qualquer um o pode ocupar. Para que não seja ocupado pelos monstros xenófobos e racistas ou a extrema-direita, talvez a esquerda deva entender que o poder não teme a esquerda, o poder teme as pessoas e o povo." – Entrevista completa aqui.

1 comentário:

fb disse...

Se quiser ser poder, por uma questão de coerência e não de mero populismo, a esquerda não pode ser escrava dos seus símbolos. E o Podemos, porque quer ser poder, não está disposto a juntar às suas propostas símbolos que afastem em vez de atraírem. Realmente, faz sentido. Os símbolos não têm que vir no pacote. A esquerda não deixa de o ser se simplificar o discurso e se reformular a forma como comunica as suas ideias. "Laicização", é sobre isto que fala Pablo Iglésias nos excertos da entrevista que abaixo republico. Está a resultar. O Podemos soma e segue nas intenções de voto dos espanhóis. Os poderososdeixaram de dormir descansados.