segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Ler os outros: série "maravilhas do capitalismo selvagem"


«Não pode mesmo dar certo o desenvolvimento sustentável num mundo onde cintila esta pérola do capitalismo selvagem: o short selling. Em português diz-se “venda a descoberto”, noção até há pouco em falta na modesta biblioteca de conhecimentos financeiros que se aloja num canto do meu cérebro.

Foi a crise na Portugal Telecom, que patrioticamente chamamos de PT, que preencheu essa lacuna do meu saber. Vinha acompanhando com curiosidade a derrocada da empresa, que vendeu o que lhe dava dinheiro e emprestou as economias que restavam a quem não podia pagar, sem que ninguém tenha sido preso por isso.

As acções caíram a pique, transformando um título que inspirava um certo orgulho bolsista a quem o detinha numa batata quente a passar adiante na primeira oportunidade.

Num momento de particular “pressão vendedora”, como se diz em bom economês, os valores bateram tão fundo que pelo preço de um café qualquer um tornava-se accionista da PT. Há um ano, era preciso investir um almoço. (...) Em termos sucintos, vender a descoberto significa alienar algo que não se tem. Funciona assim: a bolsa de valores está em queda e eu, que não tenho uma única acção de uma determinada empresa, peço emprestado um montão delas a um broker ­– tubarão, na língua de Camões. Sem surpresa, a benevolência do emprestador é assegurada pelo pagamento de uma compensação. Mas isto não importa, pois o melhor vem depois.

Imaginando que o mercado vai cair ainda mais, vendo imediatamente as acções que não são minhas a algum coitado que, se os meus planos funcionarem, vai perder dinheiro. Ele que se amanhe, o que vale é o sucesso do meu negócio.

Deixo passar algum tempo, divertindo-me a assistir ao pânico generalizado que a venda em massa está causar, porque certamente não serei só eu a adoptar a estratégia. Os preços tombam e quando estão suficientemente baixos, compro o mesmo número de acções por um valor inferior ao que vendi, devolvo-as todas a quem as concedera por empréstimo e fico com o lucro.

Maravilhado e estarrecido ao mesmo tempo, fiquei instruído quanto à genialidade das vendas a descoberto. Nas palavras de um site especializado em educar os financeiramente ignaros, “sem o short selling poderá ser muito difícil fazer dinheiro num mercado em queda”. Sem complexos e até com uma certa candura, esta declaração pressupõe um axioma fundamental do capitalismo, o de que em qualquer circunstância é legítimo lucrar. Como corolário, vender algo que não se possui, prática comum entre larápios, impostores e vigaristas, transforma-se assim num negócio lícito, proveitoso e admirável.(...)» – Ricardo Garcia, no Público
. (ler também “Banca de investimento aproveita hecatombe da PT para lucrar milhões”)

 



«Pequenos, grandes ou médios, todos os estados precisam de receitas fiscais. Mas os estados de países pequenos podem obter receitas descomunais, relativamente às suas despesas, se reduzindo a taxa de imposto sobre as empresas quase a zero conseguirem convencer muitas empresas a instalar a sua sede fiscal no seu pequeno território. Taxa pequena sobre muitas e grandes empresas equivale a receitas fabulosas para estados de países pequenos. Já os estados dos países grandes não podem fazer o mesmo. Se descerem a taxa sobre todas as empresas conseguirão atrair algumas, mas as receitas do pequeno imposto pago pelas empresas atraídas não compensaria a perda de colecta de todas as outras que já lá estão sediadas.

Mudando de poiso, as empresas deixam praticamente de pagar impostos, e os estados, à excepção dos parasitas, passam a não conseguir colectá-los. Qual é a consequência? Os estados, à excepção dos parasitas, voltam-se cada vez mais para os rendimentos do trabalho e das pensões como fonte de receita.

Nada disto faz sentido, mas na União Europeia é assim. A União Europeia que fixa em tratados os montantes dos défices e das dívidas e retira aos parlamentos a prerrogativa de deliberar sobre os Orçamentos do Estado é não só incapaz de se desparasitar, como promove a presidente o chefe de um governo parasita. Caro Sr. Juncker, vamos lá ver como é: nós ficamos com os estragos do grupo Espírito Santo, o seu pequeno (mas muito amigo) país fica com os impostos?» – José Castro Caldas, no Ladrões de Bicicletas.

1 comentário:

fb disse...

Maravilhado e estarrecido ao mesmo tempo, fiquei instruído quanto à genialidade das vendas a descoberto. Nas palavras de um site especializado em educar os financeiramente ignaros, “sem o short selling poderá ser muito difícil fazer dinheiro num mercado em queda”. Sem complexos e até com uma certa candura, esta declaração pressupõe um axioma fundamental do capitalismo, o de que em qualquer circunstância é legítimo lucrar. Como corolário, vender algo que não se possui, prática comum entre larápios, impostores e vigaristas, transforma-se assim num negócio lícito, proveitoso e admirável.(...)» – Ricardo Garcia, no Público.