sábado, 15 de novembro de 2014

Leituras de Sábado: nós também podíamos, pois podíamos


Fui lendo. "Banco de Portugal não vai revelar resultados da auditoria ao BES". Em Agosto nãosabiam, agora sabem e é segredo. Temos o direito a pagar, imensamente dentro das nossas possibilidades, o equivalente a um ano de Serviço Nacional de Saúde, este "acima das nossas possibilidades". Não temos o direito a uma Saúde decente e a saber ao certo que patifarias pagámos no BES. Olha que giro. O regulador a proteger o desregulado. Como escreve José Manuel Pureza num texto de leitura obrigatória, "O problema é que a questão da regulação é, ela própria, uma questão de força do regulador. E um Estado que estende a mão ao dinheiro que circula dá garantias de tudo menos de impor uma regulação forte. É da natureza das coisas."

Continuei a ler. "O director do Serviço de Informações de Segurança (SIS), Horácio Pinto, foi fotografado na companhia de mais dois funcionários deste serviço quando tentavam detectar escutas no gabinete de António Figueiredo, director do Instituto dos Registos e Notariado (IRN), detido na investigação aos vistos gold". Os serviços do SIS confirmam a operação de "limpeza electrónica". Olha que giro. Uma polícia ao serviço de criminosos.

Outra. "Ana Luísa Figueiredo, filha do presidente do Instituto dos Registos e Notariado, é uma das sócias da Golden Vista Europe, uma das empresas investigadas. E foi também sócia do ministro da Administração Interna numa consultora, da qual Marques Mendes ainda é sócio." Olha que giro. Ministros, filhos deste e daquele, comentadores televisivos donos do "pensem assim" e do "pensem assado". Portugal é um negócio de família.

Outra ainda. António Costa: “Aqui há uns anos houve um caso de corrupção na atribuição das cartas de condução e ninguém se lembrou de acabar com as cartas de condução porque havia corrupção na atribuição das cartas de condução.”" É exactamente a mesma coisa. A nossa sociedade só teria a ganhar se toda a gente pudesse circular sem carta de condução e só teria a perder se deixasse de conceder autorização de residência e benefícios fiscais a mafiosos endinheirados. Não fui eu quem sugeriu a troca do "ganhar" e do perder" que atrás se lê. A confusão foi o candidato a próximo Primeiro-Ministro quem a propôs para defender o negócio. Olha que giro. Se trocarmos Passos por Costa, apenas muda a família que explora a grande loja Portugal.

E já chega. “Se nos ameaçam a vida, tiremos-lhes o poder”. Como estão a fazer os gregos, como estão a fazer os espanhóis. O Podemos concluiu este fim-de-semana o processo de discussão e aprovação das propostas de estratégia política e organizativa e de eleição da sua direcção. Pablo Iglesias foi eleito secretário geral com mais de 95 mil votos. Falou Alexis Tsipras, líder do Syriza e apontado como o próximo primeiro-ministro grego. “Já é claro que juntos podemos, na Grécia como em Espanha. Vamos mudar o caminho da Europa e parar a austeridade destrutiva. O medo mudou de lado, já não está no nosso lado. Já não nos perguntam o que vai fazer o Syriza quando a Merkel nos disser que não. Agora perguntam a Merkel o que vai fazer quando a Grécia e a Espanha tiverem governos populares e justos”

E falou Marisa Matias, que também esteve presente. Bloco, Syriza e Podemos sentam-se na mesma bancada no Parlamento Europeu. “Frente aos poderosos, é no Sul da Europa que a luta pela dignidade os está a pôr nervosos. Andam muito nervosos na Grécia, estão todos muito nervosos em Espanha. Que continuem nervosos, têm boas razões para isso. Têm de perceber de uma vez por todas que estamos fartos, que não somos colónias das grandes empresas, dos fundos de investimento ou mesmo da senhora  Merkel. Já basta!”, afirmou Marisa Matias no seu discurso. Pois basta. Mas uma coisa é o basta espanhol e o basta grego, outra bem diferente é o basta português. Em Portugal, andam calmíssimos.

Ainda ontem à noite, a propósito da realidade portuguesa e da indiferença de ser o PSD ou o PS que estão no Governo, uma amiga perguntava: "então e o que é que fazemos? Votamos na actriz?" Bem sei que é injusto pessoalizar a implosão do Bloco e que esta não se deve apenas à questão da liderança. Mas que muitos colocam a questão que a minha amiga colocou e que a liderança do Bloco a ignora e aos muitos que viram as costas ao partido por não se reverem na dupla que a compõe, também é verdade. É uma lástima que não façam o grande favor ao país de saírem de cena e cederem o lugar a quem tenha a capacidade de mobilização que eles comprovadamente não têm.  Porque nós também Podíamos, pois podíamos. Isto está a ficar cada vez mais insuportável. Eu gostava de também poder.

1 comentário:

fb disse...

E já chega. “Se nos ameaçam a vida, tiremos-lhes o poder”. Como estão a fazer os gregos, como estão a fazer os espanhóis. O Podemos concluiu este fim-de-semana o processo de discussão e aprovação das propostas de estratégia política e organizativa e de eleição da sua direcção. Pablo Iglesias foi eleito secretário geral com mais de 95 mil votos. Falou Alexis Tsipras, líder do Syriza e apontado como o próximo primeiro-ministro grego. “Já é claro que juntos podemos, na Grécia como em Espanha. Vamos mudar o caminho da Europa e parar a austeridade destrutiva. O medo mudou de lado, já não está no nosso lado. Já não nos perguntam o que vai fazer o Syriza quando a Merkel nos disser que não. Agora perguntam a Merkel o que vai fazer quando a Grécia e a Espanha tiverem governos populares e justos”