sábado, 29 de novembro de 2014

Carrasco será, ao menos que seja simpático



Agora que os socialistas descobriram que a resignação dos portugueses já chegou a cúmulos de se solidarizarem com alguém com quem não têm quaisquer laços de proximidade e do qual, se a memória colectiva não for como a dos galináceos, apenas poderão recordar como mais um que usou o poder que lhe foi confiado para dar cabo da vida a quem cometeu essa asneira, o congresso que hoje se inicia tem tudo para correr bem. A grande maioria dos portugueses, e não me refiro àquela outra grande maioria ainda mais resignada que, porque não vota, abdica de contar para qualquer totobola, já naturalizou que o amanhã que deixará como herança à descendência será sempre pior do que o presente que herdou dos antepassados. Absorvido este sortilégio, a democracia, da qual os próprios se queixam, redunda na escolha do carrasco mais simpático para pôr o que lhes resta de qualidade de vida a enriquecer a finança, as grandes multinacionais e todo o restante grupo restrito que tem somado vitória atrás de vitória neste jogo desta austeridade que faz multimilionários semeando pobreza.

O carrasco bonzinho  da preferência de um grupo entusiasmado e suficientemente numeroso para colocar o PS à frente em todas as sondagens é António Costa e a sua austeridade fofinha. Estou neste preciso momento a ouvi-lo pela rádio. Não diz uma palavra sobre rasgar o Tratado Orçamental da austeridade para todo o sempre, mas fala em mudança. Não fala em renegociação da dívida pública que nos vai custando parcelas cada vez maiores de Estado social, mas enche a boca com a palavra esperança. Nada diz sobre o rompimento cada vez mais necessário com um paradigma com provas dadas de fracasso, que põe países inteiros a produzir lucros em vez de riqueza, que faz ricos em função da pobreza que semeia e que nos custa parcelas cada vez maiores de poder de compra e estabilidade de vida, presentes e futuros, mas fala em futuro. Diz que é necessário "conversar com a Europa". Assim, "conversar", se der, dá, se não der, paciência. O carrasco bonzinho é "europeísta". Nada diz sobre o que fará se não der. E em França e em Itália, países muito maiores e com muito maior peso do que nós governados pelo mesmo "europeísmo" de Costa, não deu.
Por estes dias, A França digere a indignação suscitada pela humilhação que saiu da mão de um Comissário alemão que, num artigo com visibilidade internacional, teve o descaramento de mandar a França baixar as suas pensões e, ao mesmo tempo, reduzir os impostos sobre o capital ou, caso contrário, continuará a não passar de um "país deficitário reincidente". Itália e França receberam um ultimato da Comissão: têm até Março para apaziguarem a crispação social e satisfazerem as imposições europeias em matéria orçamental (défice) e no capítulo das "reformas estruturais" (flexibilização das relações laborais, mais impostos sobre salários e menos impostos sobre lucros e rendas). Mas António Costa sabe que pode ser um Hollande – ou um Renzi – que fala português. A experiência dos outros nada diz aos portugueses. Nem a sua própria, quanto mais a dos outros. Por cá não há qualquer sombra de crispação e, evidentemente, a Comissão não está nadinha interessada em perturbar a paz deste paraíso social. Também houve reparos ao nosso Orçamento, é verdade, mas a Comissão foi mais condescendente e não viu a mínima necessidade em fixar um prazo para lhe obedecermos. Ele já está fixado. António Costa tem até Setembro para ganhar a corrida. 2015 é ano de eleições. A Comissão compreende. Costa quer conversar? Conversam depois.



Vagamente relacionado: «Ontem, num congresso partidário perto de si, o recém eleito presidente resolveu castigar a “esquerda que só tem sido útil à direita”.
Não se referia ao partido cujo governo entregou todos os hospitais que construiu aos Mello, Espírito Santo e Hospitais Privados de Portugal.
Nem se lembrou das parcerias público-privado.
Não se referia ao partido que incluiu no seu programa a privatização da EDP, da REN, dos CTT, ou que aceitou a privatização da TAP.
Não se referia ao partido que aprovou o Tratado Orçamental que nos compromete a uma política de austeridade para vinte anos e, depois, para todo o sempre.
Não se referia ao partido que aprovou, no Memorando com a Troika, um corte no serviço nacional de saúde ou uma redução da TSU a troco de um aumento do IVA, ou que aceitou congelar o salário mínimo nacional durante três anos.
Nem se referia ao partido que aprovou a anulação da cláusula do tratamento mais favorável dos trabalhadores, no contexto da legislação laboral.
Nem sequer se referia ao partido que inventou e promoveu as empresas de trabalho temporário, depois de ter introduzido os contratos a prazo ou outras formas de precarização do trabalho.
Carlos César sabe bem do que fala.
E, se se compreende que um partido reivindique os seus valores e a sua particularidade, compreende-se menos que o faça através de declarações de guerra que não têm outro fundamento que não seja a abdicação de uma resposta aos problemas que a austeridade e a finança impuseram a Portugal.» - Francisco Louçã.

 
 

3 comentários:

fb disse...

Agora que os socialistas descobriram que a resignação dos portugueses já chegou a cúmulos de se solidarizarem com alguém com quem não têm quaisquer laços de proximidade e do qual, se a memória colectiva não for como a dos galináceos, apenas poderão recordar como mais um que usou o poder que lhe foi confiado para dar cabo da vida a quem cometeu essa asneira, o congresso que hoje se inicia tem tudo para correr bem. A grande maioria dos portugueses, e não me refiro àquela outra grande maioria ainda mais resignada que, porque não vota, abdica de contar para qualquer totobola, já naturalizou que o amanhã que deixará como herança à descendência será sempre pior do que o presente que herdou dos antepassados. Absorvido este sortilégio, a democracia, da qual os próprios se queixam, redunda na escolha do carrasco mais simpático para pôr o que lhes resta de qualidade de vida a enriquecer a finança, as grandes multinacionais e todo o restante grupo restrito que tem somado vitória atrás de vitória neste jogo desta austeridade que faz multimilionários semeando pobreza.

Manuel Salgado Alves disse...

Que alternativa?

Anónimo disse...

Como sabe, há partidos que propõem outras políticas. No limite, a alternativa somos todos nós.