quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Gostei de ler: "A artimanha Juncker"


«Juncker quer responder à crise do euro e evitar a armadilha da deflacção? O Natal chegou mesmo mais cedo? Só contaram para os crédulos.

O plano que Juncker apresentou ontem, para o seu Fundo Europeu de Investimento Estratégico, é uma artimanha. A Comissão porá 16 mil milhões em garantias, e pede mais 5 mil milhões ao Banco Europeu de Investimentos. Com estes 21 mil milhões, este Banco emite títulos de dívida de 63 mil milhões e espera então que os privados (que já serão seus credores nestes títulos) entrem com mais 252 mil milhões para financiar investimentos. Tudo iria vai criar 3,3 milhões de postos de trabalho em três anos. Vai mesmo?

A galinha pôs um ovo. Se chocar o ovo e nascer um pintainho que seja uma nova galinha, as duas vão poder pôr mais ovos e vou ter muitos pintainhos que serão muitas galinhas a pôr ovos. Vou vender ovos e galinhas e ter cada vez mais ovos e galinhas. A não ser que seja desastrado e parta o ovo antes de chocar o primeiro pintainho. Esta é a história dos grandes fundos da União Europeia: em 2012, a União anunciou um “Pacto” para aplicar 120 mil milhões. Não deu em nada. A economia continuou a afundar-se ou a estagnar em 2013 e 2014: ainda estamos abaixo dos níveis de 2007, quando começou a grande crise. Agora o fundo é duas vezes e meia o valor anterior, tudo gerado com um euro da Comissão a atrair quinze euros dos privados.

Portanto, o Plano Juncker tem dois problemas. O primeiro é que podem faltar os fundos privados: agora há pouco investimento porque há muita incerteza, mas também porque há outras aplicações financeiras que são rendas certas (por exemplo, as dívidas soberanas dos aflitos). O segundo é que, mesmo que chovam fundos privados, esses empréstimos, quando chegarem aos países necessitados, são mais dívida que vai ser paga com mais juros.

Portugal, ou a Espanha, ou a Grécia, ou França, precisam de um plano de investimento em infraestruturas, que sejam serviços hospitalares, computadores nas salas de aula, carros eléctricos, portos e ferrovia? Sem dúvida. Mas esses investimentos têm retorno lento. Se forem financiados por privados que querem dividendos de curto prazo, vão ser caros. E não vão resolver o problema de 2015. Mais, se os privados tiverem essa generosidade, vão continuar a exigir privatizações (porque não os serviços hospitalares?), reformas nos sistemas de pensões e nas leis sobre despedimentos, porque sempre entenderam que é assim que asseguram que o Estado endividado lhes irá pagar. Não saímos da cepa torta.

Em resumo. O programa é ou inviável ou perigoso. Ele foi concebido para atrasar ou mesmo para evitar a única alternativa que combate simultaneamente a estagnação e a deflacção: a compra de títulos de dívida nacional pelo BCE e em grande escala, deixando aos Estados a margem de manobra para escolherem e promoverem as suas estratégias de investimento para criarem emprego a curto prazo.

Ou seja, o programa pode ser pior do que nada. Não é o que prometeram os seus arautos, e não foram poucos a dizer que vinha aí uma chuva de dinheiro para investimento, quando afinal, se for alguma coisa, é uma chuva de dívida. Não é uma solução para o euro, que continua a erguer o muro entre o norte e o sul. Não é uma resposta à austeridade, porque é mais austeridade. Não é uma resposta ao desemprego, porque estas projecções de criação de emprego são ligeiras ou infundadas. Não devolve a confiança da soberania aos países feridos pela troika, porque tem as mesmas condicionalidades na ponta do cheque.

O problema é que Juncker não parece saber fazer outra coisa. Governou o Luxemburgo enganando os vizinhos. Governa agora a Comissão com a mais velha de todas as soluções: se há um problema, finge-se que se faz alguma coisa, para deixar passar, para não incomodar ninguém e para apresentar a solução mais pretensiosa para a crise, uma malabarice sem dinheiro nem projecto.» – Francisco Louçã, no Público.

1 comentário:

fb disse...

Juncker não parece saber fazer outra coisa. Governou o Luxemburgo enganando os vizinhos. Governa agora a Comissão com a mais velha de todas as soluções: se há um problema, finge-se que se faz alguma coisa, para deixar passar, para não incomodar ninguém e para apresentar a solução mais pretensiosa para a crise, uma malabarice sem dinheiro nem projecto.» – Francisco Louçã, no Público.