segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Gostei de ler: "António Costa tem mel"


«Esta semana, na Antena 1, o líder parlamentar do PS anunciou que o partido não tinha posição sobre a reestruturação da dívida. Ferro Rodrigues, um dos assinantes do famoso "Manifesto dos 74" - na altura convenientemente saudado por António Costa - teve que fazer aquela figura em nome do discurso de estreia do novo PS: o grau zero da literatura política. Comparado com isto, a declaração de Álvaro Beleza em que convidou os subscritores a "aderirem ao PS" era um monumento ao sentido de Estado. É justo reconhecer que o PS de Seguro estava mais à frente: tinha uma posição razoavelmente cautelosa, não lhe chamava reestruturação, mas tinha uma ideia sobre a coisa. E, no entanto, cavalgando uma ala esquerda, atafulhada de subscritores do manifesto, mais o Livre de Rui Tavares, Ana Drago e Daniel Oliveira, António Costa estava a conseguir aparecer entre os socialistas como o grande paladino do regresso do PS "à verdadeira esquerda", embora tudo isso pudesse redundar numa "hollandice", na feliz palavra com que Augusto Santos Silva baptizou os restos do socialismo francês.

A Vanessa perguntou-me no que eu estava a pensar e eu estava a pensar nisto, que o António Costa tinha mel e que o maior dos poderes estava na sedução.

- Quem tinha mel era o Santana, respondeu-me ela

- Sim, o João Soares disse isso naquela altura e tinha razão. O Santana ganhou-lhe as eleições. Mas o António Costa tem mel. Até tu votaste nele. Porquê?

- Eu inscrevi-me como simpatizante porque a minha amiga Celinha que andava lá na campanha me pediu. Mas o Costa é muito melhor do que o Seguro. Olha só a voz dele. Eu odiava a voz do Seguro. E é giro, tem imenso charme, mesmo com aquela barriguinha. Tu não achas que a barriga num homem até pode ser uma coisa charmosa?

- O Moravia dizia que também era interessante nas mulheres, mas isso caiu em desuso. Mas agora isto da reestruturação da dívida é muito engraçado. O Costa arrisca-se a ter uma posição muito mais recuada que a do Seguro.

- Eu quero lá saber da reestruturação, disse-me a Vanessa. Quero é correr com estes gajos a ver se arranjo um emprego.

Haveria uma configuração astral para favorecer Costa e levá-lo aos ombros até ao governo. Não iria ser preciso nenhum "Livre" para fazer coligação com o PS. Aliás, tendo em conta que os membros do "Livre" só abriam a boca para dizer que queriam fazer uma coligação com o PS - ao que parecia movidos por um ímpeto quase incondicional - era natural que no dia da votação o potencial eleitorado decidisse ir directo ao assunto, isto é, ao PS de Costa. O sinal tinha sido dado quando, no congresso do Livre, Costa foi convidado para ser a estrela. Costa tinha uma sorte danada: depois de meter o movimento de cidadãos de Helena Roseta no bolso, preparava-se para meter Rui Tavares, Ana Drago e Daniel Oliveira no outro bolso. Com o Bloco de Esquerda em espiral recessiva, o futuro era cor- -de-rosa.

- O que é o "Livre"?, perguntou-me a Vanessa (nas eleições para o Parlamento Europeu ela ainda estava emigrada em Londres e não deu por nada).

- É um partido novo de gajos de esquerda que querem fazer uma coligação com o PS.

- Mas porque é que o Costa não os mete já nas listas e resolve logo o assunto? Isso não aconteceu outras vezes no PS? Não era o Pina Moura que também tinha uma coisa assim?

A Vanessa era uma mulher prática. Tendo em conta o discurso público dos elementos do "Livre" nos últimos tempos, talvez eles também fossem. Costa tinha mel

- E achas que o Santana Lopes ainda tem mel? Pode mesmo ser candidato a Presidente da República?

- Falamos disso depois. Agora tenho que ir ouvir o Costa apresentar a moção. Se calhar ele ainda diz alguma coisa.» – Ana Sá Lopes, no I.

2 comentários:

fb disse...

Aliás, tendo em conta que os membros do "Livre" só abriam a boca para dizer que queriam fazer uma coligação com o PS - ao que parecia movidos por um ímpeto quase incondicional - era natural que no dia da votação o potencial eleitorado decidisse ir directo ao assunto, isto é, ao PS de Costa. O sinal tinha sido dado quando, no congresso do Livre, Costa foi convidado para ser a estrela. Costa tinha uma sorte danada: depois de meter o movimento de cidadãos de Helena Roseta no bolso, preparava-se para meter Rui Tavares, Ana Drago e Daniel Oliveira no outro bolso. Com o Bloco de Esquerda em espiral recessiva, o futuro era cor- -de-rosa.

Marco Dinis disse...

Não sei quem terá mel. Mas sei que se fosse o Santana Lopes a meter estas taxas caía o carmo e a trindade. Mas como é esta estrela decadente passa tudo bem.

Mel têm as abelhas. E de vespas como o Costa Lisboa não precisa.