sábado, 8 de novembro de 2014

E a casta intranquiliza-se...



«Num sistema intersticialmente corrupto, cujo banquete é partilhado entre PP, PSOE e o rei, emerge uma força política que ameaça quebrar o poder hegemónico vencendo eleições e provocando um terramoto político no Estado Espanhol e na UE.

Reivindicando um discurso de ruptura com o quadro constitucional da monarquia, o Podemos afirma-se como representante de classe - de "los de abajo" - contra a casta que domina o país. Ao contrário dos que por cá se afirmam como "novos", o Podemos rejeita alianças negociadas com a casta, nomeando PP e PSOE como seus representantes. No plano da UE, ainda que actue num Estado que até à bem pouco tempo era tido como dos mais "europeístas", o Podemos tem vindo a afastar-se de quem, à esquerda, se propõe reformar as instituições da UE (como o grego Syriza), afirmando o primado das democracias nacionais e da soberania popular.

Ainda que conte apenas com dez meses de existência o Podemos elegeu cinco eurodeputados e começa a surgir nas sondagens como a primeira força política em Espanha.

E a casta intranquiliza-se...

O editorial do "diário de esquerda" El País, que se tem multiplicado em acusações contra os dirigentes do Podemos, não hesitou em exigir um acordo de regime entre PP e PSOE para travar o terramoto político. Entretanto, em tom de ameaça, os generais fazem saber que se multiplicam encontros e jantares, o exército treina-se para o confronto com a população civil e o Barkclays - emerso em inúmeros escândalos de corrupção - assinala o "partido de esquerda radical Podemos como um factor de risco para o crescimento económico".

Em Portugal temos muito a aprender com o Podemos mas estou convencido que a solução não será constituir um partido-pastiche. Como um dia escreveu José Saramago "sabemos muito mais do que julgamos, podemos muito mais do que imaginamos".» – Tiago Mota Saraiva, no I.


«(...) Que oportunidades políticas se abrem se uns 3,5-4 milhões de catalães [amanhã] votarem a favor da independência? É verdade que, enquanto se mantiver em funções o atual governo espanhol, o mais impopular desde que há democracia, Madrid não mudará de atitude. Enquanto a ETA matava no País Basco, a direita espanhola dizia, muito politicamente correta, que em democracia se reconheceria o direito a discutir a autodeterminação desde que se abandonassem as armas. Hoje, no entanto, perante um movimento absolutamente pacífico e perfeitamente institucional como o catalão (legitimado por um Parlamento onde 80% dos deputados têm votado a favor do direito a decidir), finge que o desafio é o mesmo. Não faltaram generais a insinuar intervenções militares na Catalunha, numa espécie de regresso ao ambiente de chantagem que, durante a Transição pós-franquista, se impôs às esquerdas que negociavam com Suárez e o Rei a emergência do novo regime. Rajoy, em qualquer caso, só tem mais um ano no governo, se tanto. O que de novo a crise económica trouxe a Espanha é a enésima demonstração da inconsistência da unidade nacional e uma inédita, de tão acelerada, degradação do sistema político, minado por uma corrupção que arrasta a Monarquia, os governos (central e regionais) do PP, dirigentes socialistas ou exdirigentes moderados catalães como o velho Jordi Pujol. As surpresas podem ser muitas neste contexto de perda de capacidade política do governo em funções e das instituições muito mais séria do que em Portugal ou na Grécia, por exemplo. Se é dada ordem à polícia catalã para impedir o processo eleitoral, ela será cumprida? Rajoy atrever-se-ia a enviar uma força policial de lealdade mais segura? Como reagiriam os catalães? Revelado aos olhos dos espanhóis (seis milhões dos quais desempregados) como a mais vasta rede de corrupção que alguma vez se terá constituído na política espanhola dos últimos 40 anos, o PP perdeu a possibilidade de mobilizar o nacionalismo espanhol anticatalanista para recuperar de uma crise de credibilidade que o arrastará para uma derrota histórica. A crise dos partidos do rotativismo, PP e PSOE, abre um ciclo de esperança que pode contaminar uma grande parte da sociedade com aquela súbita intuição de debilidade do Estado que tantas vezes propicia mudanças radicais. Não me refiro apenas ao triunfo eleitoral, prognosticado pelas sondagens, do novo movimento Podemos, o qual, ainda que recolhendo as esperanças de muitos daqueles que têm ocupado as ruas de Espanha desde há três anos, terá duras provas para superar daqui até às próximas eleições. Refiro-me ao caráter explosivo que pode assumir uma crise sistémica em que se acumulam exasperação social, impulso separatista, partidos de governo, princesas e ícones da cultura televisiva assediados pelos tribunais, medo da classe dominante de ver um regime ruir. Se for assim, por que razão desistiriam os catalães dos seus intentos?» - Manuel Loff, no Público.




No dia seguinte: com 90%dos votos contados, 80,7% votaram Sim a que a Catalunha seja um Estado independente. Cerca de 10% querem que a Catalunha seja um Estado, mas não independente e 4,6% não querem que a região seja um Estado. A estimativa do governo catalão aponta para que 2,25 milhões de eleitores tenham ido votar (entre 40 a 50% do total de votantes).

1 comentário:

fb disse...

O que de novo a crise económica trouxe a Espanha é a enésima demonstração da inconsistência da unidade nacional e uma inédita, de tão acelerada, degradação do sistema político, minado por uma corrupção que arrasta a Monarquia, os governos (central e regionais) do PP, dirigentes socialistas ou exdirigentes moderados catalães como o velho Jordi Pujol. As surpresas podem ser muitas neste contexto de perda de capacidade política do governo em funções e das instituições muito mais séria do que em Portugal ou na Grécia, por exemplo. Se é dada ordem à polícia catalã para impedir o processo eleitoral, ela será cumprida? Rajoy atrever-se-ia a enviar uma força policial de lealdade mais segura? Como reagiriam os catalães? Revelado aos olhos dos espanhóis (seis milhões dos quais desempregados) como a mais vasta rede de corrupção que alguma vez se terá constituído na política espanhola dos últimos 40 anos, o PP perdeu a possibilidade de mobilizar o nacionalismo espanhol anticatalanista para recuperar de uma crise de credibilidade que o arrastará para uma derrota histórica. A crise dos partidos do rotativismo, PP e PSOE, abre um ciclo de esperança que pode contaminar uma grande parte da sociedade com aquela súbita intuição de debilidade do Estado que tantas vezes propicia mudanças radicais. Não me refiro apenas ao triunfo eleitoral, prognosticado pelas sondagens, do novo movimento Podemos, o qual, ainda que recolhendo as esperanças de muitos daqueles que têm ocupado as ruas de Espanha desde há três anos, terá duras provas para superar daqui até às próximas eleições. Refiro-me ao caráter explosivo que pode assumir uma crise sistémica em que se acumulam exasperação social, impulso separatista, partidos de governo, princesas e ícones da cultura televisiva assediados pelos tribunais, medo da classe dominante de ver um regime ruir. Se for assim, por que razão desistiriam os catalães dos seus intentos?» - Manuel Loff, no Público.