sexta-feira, 7 de novembro de 2014

António Costa: a auto-flagelação e o rotativismo





A auto-flagelação e o rotativismo. Aconteceu em Portugal quando os portugueses entregaram o poder a Passos Coelho e a Portas para punir Sócrates, aconteceu em França quando os franceses elegeram Hollande para punir Sarkozy, voltou a acontecer esta semana nos Estados Unidos, onde os americanos deram maiorias nas duas câmaras aos republicanos para punir Obama. E tudo aponta para que se repita novamente em Portugal no próximo ano. O mais que provável sucessor de Passos Coelho divulgou hoje a sua “agenda para a década”. Não fala em renegociação da dívida, não aborda a questão da permanência no euro, não diz nada de nada sobre devolver os salários e os direitos laborais que a austeridade engoliu juntamente com milhares de empresas que não aguentaram a quebra no consumo interno, fala em investimento público “sem pôr em causa as regras fundadoras da disciplina orçamental da União Europeia”, o que, mantendo como mantém o compromisso de fidelidade ao Tratado Orçamental,  é o mesmo que dizer que irá continuar a cortar no investimento público e em tudo – serviços públicos, salários da função pública, prestações sociais  – o que comprometa alcançar a sua meta ainda distante de 0,5% do PIB como tecto para o défice estrutural. Para lá chegar, e uma vez que a austeridade é para manter, Costa tem muito que cortar. As dúvidas, se as havia, dissiparam-se. Garantidamente, aquele que se fez “candidato a Primeiro-ministro antes mesmo de ser eleito Secretário-geral do seu partido será o que Passos Coelho foi para Sócrates: pior ainda. E, pior ainda do que pior ainda, o pior do documento até nem é a austeridade que Costa se prepara para aprofundar em versão “inteligente” e “plurianual”. É a reforma do sistema eleitoral e a introdução dos círculos uninominais que favorecem a corrupção e o caciquismo local e acentuam o bipartidarismo. A menos que os portugueses punam exemplarmente esta tentativa de captura da democracia , as próximas eleições poderão bem ser as últimas em que aos eleitores será dada a possibilidade de eleger os seus representantes fora do arco que tramou isto tudo. A auto-flagelação desta vez tem tudo para ser ainda mais dolorosa do que vem sendo costume. 


Vagamente relacionado: vale a pena ler este trabalho de Marta Cerqueira e Rita Tavares sobre os milagres da gestão de António Costa aos comandos da Câmara Municipal de Lisboa.

5 comentários:

fb disse...

A auto-flagelação e o rotativismo. Aconteceu em Portugal quando os portugueses entregaram o poder a Passos Coelho e a Portas para punir Sócrates, aconteceu em França quando os franceses elegeram Hollande para punir Sarkozy, voltou a acontecer esta semana nos Estados Unidos, onde os americanos deram maiorias nas duas câmaras aos republicanos para punir Obama. E tudo aponta para que se repita novamente em Portugal no próximo ano. O mais que provável sucessor de Passos Coelho divulgou hoje a sua “agenda para a década”. Não fala em renegociação da dívida, não aborda a questão da permanência no euro, não diz nada de nada sobre devolver os salários e os direitos laborais que a austeridade engoliu juntamente com milhares de empresas que não aguentaram a quebra no consumo interno, fala em investimento público “sem pôr em causa as regras fundadoras da disciplina orçamental da União Europeia”, o que, mantendo como mantém o compromisso de fidelidade ao Tratado Orçamental, é o mesmo que dizer que irá continuar a cortar no investimento público e em tudo – serviços públicos, salários da função pública, prestações sociais – o que comprometa alcançar a sua meta ainda distante de 0,5% do PIB como tecto para o défice estrutural. Garantidamente, aquele que se fez “candidato a Primeiro-ministro antes mesmo de ser eleito Secretário-geral do seu partido será o que Passos Coelho foi para Sócrates: pior ainda. E, pior ainda do que pior ainda, o pior do documento até nem é a austeridade que Costa se prepara para aprofundar em versão “inteligente” e “plurianual”. É a reforma do sistema eleitoral e a introdução dos círculos uninominais que favorecem a corrupção e o caciquismo local e acentuam o bipartidarismo. A menos que os portugueses punam exemplarmente esta tentativa de captura da democracia , as próximas eleições poderão bem ser as últimas em que aos eleitores será dada a possibilidade de eleger os seus representantes fora do arco que tramou isto tudo. A auto-flagelação desta vez tem tudo para ser ainda mais dolorosa do que tem sido costume.

Laurentino disse...

Não se pode pedir ao António Costa que tome como sua a agenda política do BE e PCP

Filipe Tourais disse...

O António Costa não pode prometer mudanças se vai seguir exactamente as mesmas políticas. O António Costa não pode falar em esperança se já decidiu de antemão que a vai enterrar.

Lourenço disse...

A posição do BE e PCP mantèm-se em relação a Costa como o fez em relação a Sócrates. Adoram ver a Direita no Poder. Note-se que não acho A. Costa o salvador da Pátria mas creio que será mais humano e honesto que a cambada demente que está no poder.

Filipe Tourais disse...

Humano e honesto, todos são. E BE e PCP procederão com Costa como procederam com Sócrates e com Passos Coelho porque NÃO gostam de ver a direita no poder.