domingo, 5 de outubro de 2014

Viva a República!


Hoje celebramos o 104º aniversário da República. Sem a dignidade do feriado nacional que deixámos suprimir sem esboçar o mínimo protesto digno desse nome. Comemorar a República nestas condições é prestar homenagem aos valorosos cidadãos que arriscaram as próprias vidas e se sublevaram por rejeitarem ser os vassalos que hoje fazemos questão de ser, aos visionários que quiseram ver o povo com a instrução que a moda de ser ignorante e despojado de ideais hoje dispensa de bom grado, aos patriotas que souberam impor a abolição dos privilégios de casta dos bem nascidos e a separação entre Igreja e Estado às quais o défice de cidadania da maioria da população é hoje incapaz de dar a importância devida.

Cento e quatro anos depois de 1910, ainda foi possível a uma aristocracia republicana que enriquece à sombra dos privilégios de exploração de monopólios naturais como energia, combustíveis e telecomunicações, cujos lucros e fortunas têm privilégios fiscais que os salários não têm e cuja delinquência banqueira sobrevive a um sistema de Justiça que lhe confere imunidade, convencer um povo que nunca foi rico que viveu acima das suas possibilidades. Mais de um século depois, a República que nos toca a todos sem excepções fazer acontecer ainda aceita sem questionar ser sobrecarregada com os impostos que uma Igreja Católica maior proprietária imobiliária do país completamente isenta de impostos não paga.

Ainda é o salário, o carro, a casa e a vida do vizinho plebeu que os plebeus questionam, não o direito que não é direito de lhe pagar um salário de miséria e de explorá-lo do patrão nobre que graças à República também já não é nobre e formalmente é igual em direitos ao plebeu que, porque  continua a aceitar olhá-lo de baixo para cima, prefere canalizar a sua insatisfação contra o plebeu que lhe está mais próximo. Esta submissão perdura até aos nossos dias para fortuna de uma escassa minoria e para infortúnio de todos os restantes. Mais de cem anos depois, a mentalidade predominante permanece muito pouco republicana.

O 5 de Outubro de 1910 pode comemorar-se relembrando todas as suas conquistas, mas deve também servir para sublinhar-lhe o que ficou por fazer. Uma revolução é sempre um processo inacabado. Os heróis da República primeiro – e os heróis de Abril depois – fizeram o mais difícil, o mais fácil deixaram-no para nós o fazermos. Sem corrermos riscos de vida. Este ano quis homenagear a República e os seus heróis assim, entre o que foi feito e o que continua por fazer, entre o que se conquistou e o que teria sempre que ser conquistado depois.

Viva a República!

Sem comentários: