quarta-feira, 8 de outubro de 2014

PT: como todas as outras



Era uma vez uma empresa pública, feita com o dinheiro dos portugueses, que fornecia serviços de qualidade, garantia a muita gente empregos qualificados e bem pagos e, porque operava num mercado sem concorrência, gerava avultadas receitas ao Estado português. Foram assim a Galp, a EDP, os CTT e tantas outras empresas que, apesar do seu valor estratégico, foram vendidas ao desbarato a privados ao longo dos últimos quinze anos. Os argumentos que justificaram as privatizações foram basicamente dois, o de uma concorrência que se sabia nunca aconteceria depois de deixarem de ser públicas e o da eficiência da gestão privada, que entusiasmados governantes e comentadores vendiam à opinião pública como incomparavelmente superior à da gestão pública.


A PT foi uma destas empresas. Como todas as outras, foi vendida a preço de saldo. Como em todas as outras, as receitas que proporcionava ao Estado para financiar Saúde e Educação foram transformadas em rendas garantidas a privados pela ausência de concorrência. Como todas as outras, distribuiu lugares na sua administração pagos a peso de ouro a figuras do centrão que pôs o país a rentabilizar negócios como o seu. Como todas as outras, deixou de ser um dos maiores e melhores empregadores do país, tendo os seus empregos qualificados, estáveis e bem pagos sido postos nas mãos de empresas de trabalho temporário às quais a PT confiou a sua transformação em trabalho o mais mal pago e o mais precário possível, de forma a maximizar lucros também maximizados pelas isenções e perdões fiscais concedidos pelo mesmo centrão ao qual foi retribuindo com os salários principescos atrás referidos.


Uma destas isenções fiscais aconteceu com o negócio da venda da VIVO, no tempo de Sócrates, outra com o negócio da fusão da PT com a OI, novamente com a cumplicidade do PSD e CDS, então na oposição, e outra ainda com a eliminação das golden share que o Estado detinha na PT, EDP e Galp, já pela mão do actual Governo e sem qualquer contrapartida para o Estado, uma borla completa. Ao mesmo tempo que sobrecarregava os portugueses com sacrifícios draconianos e uma carga fiscal nunca vista, o Governo abdicou de receber um cêntimo sequer da parte que caberia ao Estado se o interesse público tivesse sido devidamente acautelado e se a legislação fiscal fosse aplicada a todos estes negócios que renderiam várias centenas de milhão.
As justificações de todos estes atentados ao interesse público foram todas elas bizarras. Por exemplo, a fusão com a OI foi justificada com o nascimento do maior operador de telecomunicações de Língua oficial portuguesa. Um gesto muito bonito, tenho que concordar. Mas a empresa já não era pública e, sendo privada, qualquer perdão seria um donativo de muitos milhões de um povo que conta os tostões para conseguir comer até ao final de cada mês a uma empresa que rende milhões todos os dias. Um roubo mesmo nada bonito.


E agora adeus à tal maior operadora de Língua oficial portuguesa. A OI quer ver-se livre da PT. A tal gestão privada, tão mais eficiente do que a pública, andou a emprestar às escondidas 900 milhões a esse universo de delinquência tão dona disto tudo que faliu o BES como lhe apeteceu sem que o regulador visse o mais pequeno indício de irregularidades. Dois dos responsáveis pelo desfalque, reconhecidíssimos como gestores pelo regime ao ponto de receberem condecorações presidenciais, HenriqueGranadeiro primeiro e Zeinal Bava hoje, já foram corridos da PT/OI, embora sem o procedimento criminal aplicável ao comum dos mortais que se aventure a abusar da confiança nele depositada para emprestar dinheiro que não é seu a uns amigos do peito.


Quem necessita dos préstimos de (pelo menos) um gestor premiadíssimo e com um registo criminal imaculado? Quem quer comprar uma empresa de telecomunicações de um país onde pode explorar “colaboradores” à sua vontade, pode combinar preços com uma concorrência colaborante e pode contar com Governos que colaboram até na restrição a quatro canais do TDT que noutros países emite mais de 50? Colabore, não se mexa. Estas histórias terminam sempre bem. A continuação é Já a seguir, num telejornal perto de si.


(editado)

2 comentários:

fb disse...

E agora adeus à tal maior operadora de Língua oficial portuguesa. A OI quer ver-se livre da PT. A tal gestão privada, tão mais eficiente do que a pública, andou a emprestar às escondidas 900 milhões a esse universo de delinquência tão dona disto tudo que faliu o BES como lhe apeteceu sem que o regulador visse o mais pequeno indício de irregularidades. Dois dos responsáveis pelo desfalque, reconhecidíssimos como gestores pelo regime ao ponto de receberem condecorações presidenciais, Henrique Granadeiro primeiro e Zeinal Bava hoje, já foram corridos da OI, embora sem o procedimento criminal aplicável ao comum dos mortais que se aventure a abusar da confiança nele depositada para emprestar dinheiro que não é seu a uns amigos do peito.

Carlos Marinho disse...

Todos os Portugueses residentes e não residentes devem ler isto e reflectir. Pf. Publicar.