segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Mas que esquerda é esta?


Antes, com Seguro, eram as abstenções violentas que carregavam às costas a responsabilidade de fazer a opinião pública divergir de uma imagem de um PS que sempre esteve completamente de acordo e votou favoravelmente ao lado dos partidos da maioria as iniciativas legislativas mais importantes, aquelas que este arco do memorando aprovou conjuntamente para deixar mossa nas vidas dos portugueses por muitos e maus anos. Agora, com Costa, na primeira oportunidade de mostrar que o PS mudou, o PS preferiu mostrar-se igual a si próprio: à última hora, à boleia da petição que nasceu do Manifesto dos 74, com muito cuidado para não usar palavras como “renegociação” ou “reestruturação” da dívida, isto é, sem assumir nenhuma posição política, o PS apresentou um projecto de resolução para propor um debate. Dívida, euro, austeridade, salários, direitos laborais, os milionários que vão nascendo da miséria que vai engolindo cada vez mais gente, os temas que encheriam a agenda de qualquer partido minimamente de esquerda, o PS trata-os com pinças e sem dizer ao que vem e que projecto tem para o país. As sondagens dão-lhes razão, os portugueses contentam-se com as mudanças vagamente insinuadas como promessas e não hesitarão em confiar-lhes nova maioria absoluta, o PS pode dar-se ao luxo de ficar à espera das eleições sem se comprometer com nada.

E nem assim, com este PS que não quer ser carne nem quer ser peixe, o que quer é poder e apenas poder, e com o país mergulhado na sua maior crise económica e social de que há memória, a esquerda à esquerda desta esquerda que talvez um dia o tenha sido consegue afirmar-se com um projecto credível capaz de responder aos problemas dos portugueses. O Bloco, que deixou a falar sozinhos os 74 do Manifesto, as dezenas de milhar que assinaram a petição e os académicos que partilham a autoria da única proposta até agora apresentada de resolução do problema da dívida, insiste em perder-se na inovação social de uma liderança bicéfala que divide por dois o pouco mediatismo que tem e ainda é capaz de diluí-lo insistindo numa agenda que fala de tudo ao mesmo tempo para não se fazer ouvir sobre nada. O PCP, por seu lado, insiste na inovação social de há cem anos e num modelo social que a História ultrapassou para se embebedar na sua própria razão e recusar qualquer convergência à esquerda, por mais evidente que seja a sintonia com outras forças partidárias quer no campo das propostas e dos projectos, quer na tradição de honrar escrupulosamente o contrato eleitoral selado pelo voto com os eleitorados respectivos.

Que esquerda é esta? O PS sabe que pode continuar a não ser, Bloco e PCP continuam a não saber ser. É a esquerda que mais convém aos mercados. É uma esquerda à prova de gente, uma esquerda que não serve, uma esquerda que não sabe estar à altura do seu tempo. Uma esquerda que devia ser. Porque nos faz falta. Cada vez mais.


«A Europa sonha que está a dançar, ao som de Tchaikovsky, uma nova versão de "O Lago dos Cisnes". Berlim acredita que é a reencarnação do príncipe Siegfried e que, nestes dias de crise muito nebulosa, encontrou a rainha dos cisnes, a rainha Odette, a deusa da austeridade. Mas, condenada ao feitiço do mago Rothbart, Odette foi transformada em cisne e só à noite consegue recuperar a aparência humana. Ou seja, só depois de penar com a tortura fiscal e o desemprego é que Odette poderá ser libertada do jugo da austeridade. Só que, encantado pela feiticeira Odile, que fingia ser Odette, o príncipe esquece o juramento e rompe-o. (...) Não será pois só pelo combate ao défice que a Europa sairá do feitiço do cisne com reumático que hoje é. Por isso quando o Governo português aponta para um crescimento económico de 1,5% e se olha para o comportamento das economias europeias e para a canga dos limites dos défices, parece que a Europa está a entrar na fase da esquizofrenia. O bailado alemão é agora um equilíbrio desastrado em cima de um "skate" por parte de quem só pensa nos interesses próprios. E, no meio de tudo isso, Portugal nem é um cisne. É o ganso que paga impostos. E juros da dívida.» – Fernando Sobral, no Jornal de Negócios.

De acordo com um estudo do centro de estatísticas da União Europeia, Eurostat, feito com base em dados apurados pela Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Económico (OCDE), Portugal é o país da Europa Ocidental onde o custo do trabalho é mais baixo e onde cada cidadão empregado, para além de ter que suportar um sistema fiscal que o põe a trabalhar quase meio ano para pagar impostos porque, ao mesmo tempo, desobriga grandes fortunas de qualquer contribuição e vem desagravando a carga fiscal sobre lucros e rendas, ainda é dos que tem de trabalhar maior número de horas por ano – mais 324 do que na Alemanha ou mesmo mais 47 do que em Espanha. Os dados divulgados pelo Eurostat demonstram também que os portugueses trabalham por ano 1712 horas, mais do que em 17 países da OCDE. As entidades patronais do país são as que menos gastam por hora de trabalho na Europa Ocidental, menos até do que na Grécia, onde se considera que as imposições da troika foram as mais duras dos países sob tutela. As estatísticas oficiais demonstram ainda que entre 2008 e 2013 os custos do trabalho cresceram cerca de 10% na Zona Euro, mas em Portugal tinham diminuído 5% antes do Governo ter decidido usar dinheiros dos subsídios de desemprego presentes e das pensões de reforma futuras para ajudar as piores empresas, as que pagam pior, no pagamento de salários, desmentindo todas as tendências registadas na zona envolvente e também os argumentos pela austeridade e contra os direitos laborais invocados pelo “arco da governação” em Portugal e pela troika, “com especial envolvimento do tal presidente da Comissão Europeia que era português. – do artigo do José Goulão, no Jornalistas sem fronteiras.


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