sábado, 4 de outubro de 2014

Gostei de ler: "O argumento Sócrates"


«Já se percebeu que o “argumento Sócrates” vai ser um dos principais instrumentos de combate a António Costa e ao PS. Ele fala, ou, mais comummente, não fala, e Sócrates é atirado para cima da mesa como a pedra de serviço.

É um pouco pobre como argumento, mas não deixa de ter alguma eficácia marginal, à falta de melhor. É verdade que Sócrates é um dos principais responsáveis pelo estado calamitoso do país, tornou-se uma personagem que provoca uma imediata repulsa, tem uma imagem pública pelas ruas da amargura e a mera evocação do seu nome provoca fúria. Muitos portugueses detestam-no com grande convicção e tornou-se símbolo de uma era cujo resultado foi a bancarrota e a troika. Num ou noutro aspecto, o balanço da sua actuação como Primeiro-ministro podia ser mais mitigado, - nem tudo é de sua inteira responsabilidade, - mas o que sobra de sua directa e intransmissível responsabilidade, mais que justifica o anátema que caiu sobre o seu nome. Quem não percebe isso vive na Lua.

Mas a história de Sócrates, convém recordar, não é a preto e branco e muitos dos que hoje andam com as pedras com o seu nome para atirar ao PS tem bem pouca autoridade para o fazer. Eu sei, até pela minha experiência de crítico, - que pode ser consultada no arquivo destes artigos, - como era solitário e incompreendido criticar Sócrates. No PSD, sim no PSD, nos mesmos meios que se colaram com cola-tudo ao “ajustamento” e ao governo salvífico de Passos Coelho-Gaspar-Portas, desde os altos negócios, ao aprendiz de feiticeiro num mini-blogue, houve louvaminhas a Sócrates que nunca mais acabavam.

Sócrates foi endeusado por muitos os que saíram dos almoços de negócios e dos escritórios de advogados, das recepções e inaugurações, dos gabinetes e dos telefonemas, onde o frequentavam e incensavam, para agora o tratar como demónio vivo. Eu li milhares de palavras sobre como Sócrates era o representante de um “novo” socialismo moderado, aberto ao mercado e aos negócios, cujos esforços para corrigir o défice deixado por Santana Lopes, era notável e apoiando-o nalguns dos conflitos corporativos mais duros que o seu governo teve, como o dos professores. Havia igualmente a tese, que sempre combati, de que Sócrates tinha tirado “espaço político” ao PSD, governando como um social-democrata e que isso marcava um ponto sem retorno ideológico e político. Passos Coelho, então desenvolvimentista contra Manuela Ferreira Leite que dizia que “não havia dinheiro”, estava muito próximo de Sócrates na visão, nem mais nem menos, … das grandes obras públicas. Estão todos esquecidos, não é verdade?

Mas há mais: quando o nome de Sócrates começou a aparecer em todas as trapalhadas, suspeitas, histórias e negócios, do curso às marquises, do Freeport à Cova da Beira, do bizarro contrato com Figo à tentativa de controlar os media, a TVI em particular, usando a PT, quando se conheceram detalhes da iniciativa dos magistrados de Aveiro de processar Sócrates por abuso do poder, somaram-se as declarações em sua defesa de Passos e Miguel Relvas, queixando-se que lhe estava a ser movido um “ataque pessoal”. Este par do PSD protegeu Sócrates quanto pôde das consequências que podia ter o inquérito parlamentar, considerando que não se devia ir mais longe, de novo porque isso seria um “ataque pessoal”. Isto vindo do mesmo homem, Passos Coelho, que há uma semana, referindo-se claramente a Sócrates numa insinuação disse: “Não possuo riqueza acumulada nem tenho em nome de tias, filhos e primos quaisquer bens”. Estamos conversados.

É por isso que eu não aceito o “argumento Sócrates” em 2014 e espero que o “argumento Sócrates” se transforme no “argumento Sócrates-Passos Coelho-Portas”, identificando-se assim a tripla que, desde pelo menos 2008, e até antes, ajudou a destruir Portugal, a destruir a sua economia e finanças, a por em causa a sua independência, a alterar profundamente os equilíbrios entre grupos sociais, a dividir os portugueses atirando-os uns contra os outros e aprovar muitas medidas iníquas, que minaram a boa-fé que deve presidir à actuação do estado em democracia. E que ajudaram a que a democracia portuguesa conheça uma crise de representação muito grave.

Sócrates e Passos Coelho não destruíram os mesmos aspectos, não destruíram as mesmas coisas nem da mesma maneira, não actuaram de modo igual, mas deixaram um rastro demolidor de que o país muito dificilmente se vai livrar tão cedo e vai condenar muitos portugueses a passar os últimos anos da sua vida sem esperança nem destino que não seja empobrecer e ficar cada vez pior. Ambos mostraram pouco apreço pela lei e pelo estado de direito, actuando no limite ou para além da legalidade, ambos se rodearam de cortes interessadas e interesseiras com origem nos seus partidos, permeando os lugares de estado com os seus boys, numa exibição de prepotência com base nas suas maiorias absolutas. Um esbanjou sem controlo milhões e milhões em projectos “bandeira” e em “má despesa pública”, outro dividiu os contratos entre os de primeira (PPPs e swaps, tributos aos credores) e os de segunda (reformas e pensões, acordos colectivos de trabalho, compromissos laborais, etc.), criando desequilíbrios que fazem com que os frutos do trabalho e da riqueza sejam hoje pior distribuídos. Ambos permitiram a captura do sistema político pela banca, com os resultados que o caso BES revela em todo o seu esplendor. E ambos usaram e abusaram dos poderes do estado para colocarem os cidadãos no seu sítio, quer fosse com o fisco, com a inversão do ónus da prova, quer fosse a ASAE a multar restaurantes por causa dos galheteiros. Ambos foram total e completamente anti-liberais, no plano económico, social e político.

Sócrates e Passos Coelho são muito diferentes, mas são também muito iguais. Aquilo em que foram e são mais iguais é na amoralidade que introduziram e reforçaram na vida pública, aqui também com a prestimosa ajuda de Portas. A moralidade na vida pública não se nota quando existe, mas torna-se um monstro que inquina tudo quando não existe. Ambos usaram do dolo, do engano como método de governar, utilizando todas as técnicas das agências de comunicação e marketing, as novas formas de propaganda. Ambos desconhecem o seu país, não gostam do seu povo, não prezam a sua independência, fazem gala de não precisar da História para nada e são incapazes de aprender, embora sejam muito capazes de se adaptar, sem memória, nem honra, nem compromisso com a verdade. Em suma, eles marcaram a chegada ao poder de uma geração de governantes muito iguais entre si, gente mal formada, mal preparada, mal-educada, mal instruída e mal-intencionada. De gente como Sócrates e Passos Coelho.

É isto que o “argumento Sócrates” me lembra. Nunca o utilizarei a não ser em tandem com o “argumento Passos Coelho”. Até porque, convém recordar, que quem está no poder é o segundo e não o primeiro. E quanto a António Costa eu só posso desejar que não repita os erros trágicos de Sócrates e que não repita os erros trágicos de Passos Coelho. Até, porque, realisticamente, não é impossível que venha a repetir mais facilmente os erros de Passos Coelho do que os de Sócrates. Vamos ver.» – Pacheco Pereira, no Público.

11 comentários:

lourenço disse...

A extrema esquerda e a direita odeiam sócrates, só eles sabem porquê. Socrates foi o melhor primeiro ministro que portugal teve desde 74,
e como tal foi crucificado.

jose neves disse...

O Pacheco do palavreado acima é a prova acabada do falhado político que sempre foi.
Do político de "visão" que apoiou sabujamente as grandes personagens que foram e são cavaco e manuela.
O político de "visão" que nunca viu "vacas loucas" quando já era um caso perigoso de saúde pública e fez, na AdR, um enxovalho a António Campos que denunciara o caso nesse local próprio, da mesma índole que mais tarde faria e faz a Sócrates.
O político de transcendente "visão" que viu o Iraque semeado de armas de destruição maciça e chamou velhinho tonto a Soares quando este desfilou na Av. da Liberdade contra a querra do Iraque.
O mesmo político de "visão" impoluta quando apoiou Durão Barroso nessa guerra do Iraque e nunca reparou no Durão Barroso corrupto mal chegou ao poder com os negócios do pereira coutinho, depois nos submarinos e mais tarde na sua fuga cobarde para a Europa. E tudo porque durão lhe reservara um lugar como embaixador na ocde.
Pacheco, o político de "visão" que andou, na AdR, fechado em câmara escura a visionar e vasculhar as cassetes gravadas dos telefonemas avulsos de Sócrates e disse que tinha visto, claramente, um atentado contra o Estado de Direito nessas cassetes mas que nunca nos mostrou onde estava o atentado nem intentou uma acção junto das instituições jurídicas para prender Sócrates.
É esse pacheco que conjuga bem as palavras mas vive mal com a sua incompetência política que enche páginas de insinuações e acusações sem nunca se referir em que consistiu precisamente os factos de que fala. Refugia-se em subjectividades como 'Ambos usaram do dolo, do engano como método de governar, utilizando todas as técnicas das agências de comunicação e marketing, as novas formas de propaganda. Ambos desconhecem o seu país, não gostam do seu povo, não prezam a sua independência, fazem gala de não precisar da História para nada e são incapazes de aprender, embora sejam muito capazes de se adaptar, sem memória, nem honra, nem compromisso com a verdade'.
Todo o texto está gafo de palavreado inventado para o caso que. esse sim, não tem o mínimo compromisso com a verdade.
Para pacheco a "verdade" é sempre e só a que a sua imaginação criou.
Os outros descomhecem e não gostam do seu país e ele que, por oposição, gosta e conhece bem o país porque não põe saber e pernas a caminho e nos vem conduzir à terra prometida?
No psd também não é pp que se aproveita nem como político nem como homem sério.

Filipe Tourais disse...

Apontam baterias ao Pacheco, à extrema não sei quantas e à direita à qual o PS também pertence, comentar o que se lê no texto é que não. Excelente sinal. Texto certeiro. Também achei.

Anónimo disse...

Quando se referem aos erros do Sócrates, eu gostava que, pelo menos, referissem UM(1)!
Das vezes que tenho ouvido falar de erros, nunca ouvi nada diferente de um célebre aumento de 2,9% aos funcionários públicos em 2009, ano de eleições!
Mas que enorme erro! Até parece que o cavaquista Pacheco nunca viu "erros" desses, ou maiores, nos governos do seu amigo de Belém.
E quanto a obras públicas, parece que também nunca ouviu falar das orientações de Bruxelas, de que até a sr.ª Merkel se recorda e a que já se referiu.
Por isso, estamos conversados sobre a isenção de Pacheco, a costela puxa-lhe sempre para o mesmo lado!

Anónimo disse...

Pelo contrário, caro amigo, esse aumento foi das poucas coisas que Sócrates fez bem. O propósito eleitoral com que o fez, sim, está errado, tal como o desmantelamento de carreiras, flexibilização das relações de trabalho, achatamento salarial subsequente e congelamentos complementares. E lá se foram os serviços públicos, a segurança social, o consumo, o emprego que foram na torrente de todos estes salários e direitos que Sócrates amputou.

jose neves disse...

Mas que é que Tourais quer se comente no texto se tudo no texto não passa de insinuações, percepções e impressões pessoais de um político incompetente ressentido e vomitando fel sobre outro político que é mil vezes melhor?
Como todos os psd fizeram antes o Pacheco omite o que aconteceu em 2008. Porque nunca publica Pacheco nem fala nisso, nem o Tourais aqui, os dados e indices internacionais comparativos do antes e depois sobre a pobreza, sobre educação, sobre a investigação, sobre a ciência, sobre o investimento, sobre a economia e sobre praticamente tudo? E isso, depois de ter de tapar a miséria de recessão deixada, como faz sempre o "menino guerreiro" num momento em que a Europa toda crescia.
Até os psd agora, para se auto-desculparem já deram pela "maior crise desde 1929" como fez o moedinhas, o vibrante "anti-troika".
Porquê, os críticos de Sócrates falam e argumentam usando o correio da manha, mas nunca, jamais, apresentam dados concretos e estatísticas credíveis para justificar o que apenas dizem de boca por que leram no dito 'cm' ou outros pasquins similares.
Um texto como este de pp pode ser analisado como exercício literário mas jamais como história. E Pacheco sendo intelectual e historiador do período Sócrates é tão pantomineiro como portas em tudo que diz e faz.

Filipe Tourais disse...

Vocês são engraçados. De cada vez que se fala no Sócrates, temos que trazer o calhamaço das estatísticas atrás. Como se no tal calhamaço não viessem os novos 150 mil desempregados que Sócrates havia prometido como 150 mil novos empregos, o salário mínimo congelado ao arrepio do acordo firmado anos antes, as carreiras desmanteladas que puseram todos os funcionários públicos a ganhar o mesmo até ao fim da vida, as PPP disto e daquilo, a Saúde Mello e Espírito Santo, a Educação GPS e o record de escolas encerradas, etc, etc. Mas o Sócrates foi o maior.

Anónimo disse...

AH! Não tenhas mesmo dúvidas, Filipe Tourais!
Ele já antes de ser PM era mesmo o maior, o maior perigo para a direita e extrema esquerda.
Por isso as miseráveis calúnias lançadas sobre ele, quer antes de eleito quer depois, já PM.
Eles "cheiraram" o perigo, por isso tentaram destruí-lo muito antes de ele os afundar em eleições.
E continuam a ver nele um perigo latente, por isso continuam a persegui-lo.
Mas enganam-se, não conseguirão!

Filipe Tourais disse...

O que escrevi acima, e fui telegráfico, são factos, não são calúnias. E sobre as "calúnias" apenas direi que até podem nem sê-lo, houve coisas que ficaram por provar, o que é diferente de serem mentiras.

soudocontra disse...

O autor deste blog, desculpe lá oh sr. Filipe, não passa de um anti-socrático, manipulado e anestesiado, como muitos outros, que com a ajuda do PCP e BE, contribuíram para o derrubar. Você, oh sr Tourais, queria que o Sócrates fizesse o quê? Uma nova revolução? Não, ele, como político do poder deste sistema, e dentro do sistema pôs em causa os interesses de grandes senhores da finança e iniciou um processo de dar ao país novos rumos à economia, por exemplo: " Começou por reduzir o défice, reformou a Segurança Social, a Escola e a Saúde. Modernizou costumes atávicos. Apostou na ciência e fez do país o que mais cresceu neste domínio. Apostou nas energias renováveis, em produtos exportáveis de alta tecnologia, e os resultados, que são lentos, já se começam a ver." Que decepção o seu blog e as suas ideias pré-concebidas, sr. Filipe Tourais!?!?!?

Filipe Tourais disse...

Bom, então o problema serei eu, o Pacheco e todos os que criticam o muito que é criticável na governação Sócrates, que foi perfeita e a melhor de sempre. Ficamos assim, esta caixa serve para comentar o que se diz no post, não para comentar pessoas. Eu não comento pessoas, ainda menos pessoas que nem sequer conheço.