quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Austeridade selectiva: obrigado, portugueses!


Empobrecer a trabalhar cada vez mais e a receber cada vez menos, enriquecer sobre a liberdade de pagar salários de miséria e de despedir a preços de saldo para contratar mais barato logo a seguir e o direito a acumular fortunas isentas de imposto. A crise dos pobres e remediados fez a fortuna dos ricos. Só nos últimos dois anos, os anos em que os cortes salariais foram os maiores de toda a Europa, os direitos laborais implodiram sob a nomenclatura oficial de “reformas estruturais” e os “sacrifícios” impostos com uma brutalidade sem precedentes aos rendimentos do trabalho deixaram lucros, rendas e patrimónios ao largo, Portugal criou 28% dos seus milionários – indivíduos com mais de um milhão de dólares de riqueza líquida, ou seja, activos financeiros mais activos imobiliários menos dívida. Os números foram avançados ontem pelo Credit Suisse ao Diário Económico, na sequência do mais recente estudo onde o banco suíço analisa a distribuição da riqueza mundial. Existem actualmente 75.903 milionários em Portugal, mais 10.777 do que no ano anterior. E já em 2013 haviam surgido 10.395 novos milionários no país. É aqui que está o resultado de três anos de sacrifícios impostos a pretexto da “situação que o país atravessava” em matéria de contas públicas. Na redução da dívida pública é que não está certamente, ela multiplicou-se por 1,4 nos últimos três anos. Estamos todos mais pobres, os nossos jovens emigraram, o desemprego aumentou, a qualidade do emprego pulverizou-se, venderam a preços de amigo  a quase totalidade do que restava de empresas públicas e agora temos menos e piores serviços públicos. Mas temos mais milionários. Valeu a pena. Ou melhor, está a valer a pena. A não renegociação da dívida e a permanência no euro colocam-nos mais de duas décadas desta austeridade selectiva à nossa frente. Isto ainda mal começou. 

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