terça-feira, 30 de setembro de 2014

Uma Europa ordenada: os branquinhos no Norte, os escurinhos no Sul


Parece que a Comissão Europeia ficou muito incomodada com o aumento de 20 euros do salário mínimo que começará a vigorar a partir de amanhã. Não porque o aumento não chega a um euro por dia. Não porque 505 euros continua a ser um salário de miséria. Não pela forma como o Governo o negociou, aceitando sacrificar os contribuintes, que para além de juros agiotas e rendas de parcerias mais ou menos privadas irão agora também ajudar os empresários a pagar os salários de miséria que quantificam a exploração que lhes alimenta as fortunas. Diz a Comissão que por ser uma medida de sinal contrário ao dos compromissos assumidos pelos três partidos do arco do memorando que aceitaram implodir salários e direitos laborais para transformar a pobreza generalizada e a liberdade de explorar quem trabalha em ganhos decompetitividade. E diz a mesma Comissão que o aumento agora anunciado é temporário. São eles que nos avisam que a campanha eleitoral já começou.

Nem de propósito, na Quinta-feira passada, na Alemanha, a Câmara Baixa aprovou uma remuneração mínima horária de 8,5 euros, isto é, quem na Alemanha trabalhe as oito horas diárias e os cinco dias úteis semanais que se trabalham em Portugal passará a ter como garantida uma remuneração mensal de 1496 euros. Será demasiado? Pelo contrário. Não é por aí. Não são os alemães que estão demasiado bem, os portugueses é que estão demasiado mal. E poderiam ficar melhor se os alemães ganhassem ainda mais e as importações alemãs puxassem pelas exportações portuguesas.

O que é aqui criticável é, por um lado, a irracionalidade económica e a insensibilidade social, a roçar a xenofobia, de um directório europeu que amplia as assimetrias que devia reduzir e promove a estagnação económica em vez de potenciar o crescimento europeu e, por outro, a subserviência de três partidos portugueses que se puseram de acordo com o primeiro e aceitaram trabalhar para fazer de Portugal uma reserva de mão-de-obra barata, uma economia com um baixo padrão de especialização, um país que produz lucros mas não produz riqueza, onde se empobrece a trabalhar.  

Mas o pior de tudo é que a maioria dos portugueses assiste, na mais perfeita indiferença, sem perceber que não é apenas o direito a uma vida digna de centenas de milhar de compatriotas que fica nos bolsos dos empresários que choram e berram sempre que lhes é proposto subir o salário mínimo. É a Saúde de todos, é a Educação dos filhos de todos, são os empregos de todos  e são as pensões futuras de todos. É do consumo que depende a criação e a manutenção de postos de trabalho. E é destes salários e de todos os salários que são fixados em função deste mínimo que vêm os descontos e os impostos que pagam o Estado social que vamos deixando de ter. Isto vai custar-nos muito, mas mesmo muito caro. Andamos há demasiado tempo a dormir muito acima das nossas possibilidades.

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