quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Primárias mesmo primárias


Podiam ter falado sobre a vergonha de um salário mínimo que esteve congelado quatro anos para agora ser aumentado nem em 1 euro por dia e sobre as consequências da decisão de continuar a alimentar lucros reduzindo cada vez mais a riqueza e condenando centenas de milhar de portugueses a uma miséria de onde não se consegue sair trabalhando. Podiam ter explicado a razão que os leva a manterem a flexibilização dos despedimentos que condena milhões de portugueses a viver um dia de cada vez, sem sonhos de vida de médio e ainda menos de longo prazo. Podiam ter explicado como vão repor pensões de reforma e salários na função pública sem aumentar impostos e sem rasgar o Tratado Orçamental que o seu partido ajudou a aprovar e que obriga a aumentar ainda mais a dose da austeridade que destrói o país. Podiam dizer como é que vão deixar de continuar a desmantelar Saúde e Educação e como é que vão financiar a tal reindustrialização do país se o dinheiro vai todo para juros e eles não querem renegociar a dívida. Teria sido interessante. Teriam falado sobre nós.

Porque tu isto, porque tu aquilo, António Costa e António José Seguro preferiram falar para uma plateia que se entusiasma a ouvi-los falar sobre si próprios, sobre poder, sobre resultados eleitorais. Puderam dar-se ao luxo de não falar sobre política. Seguro perdeu o debate ao falar num partido invisível que ninguém ignora que existe, que a plateia dona dos votos que decidirão o futuro dos dois alegados antónimos gosta de apontar ao partido rival, uma argolada que desagradou, quer por não ser tema para tratar no terceiro frente-a-frente destinado a discutir os projectos que ambos concordaram em não discutir pela terceira vez, quer pela forma deselegante e pouco inteligente como foi abordado pelo desespero de Seguro. Costa conseguiu não perder o debate mesmo sem explicar em que é que os seus círculos uninominais são melhores do que a redução de deputados do outro António na bipartidarização que ambos os projectos têm como objectivo. Prometeram eleições primárias, ninguém esperaria que fossem tão primárias. Foram mesmo muito primárias. No Domingo eles vão a votos. À noitinha, será conhecido o resultado das primeiras eleições em Portugal em que um partido concede ao seu adversário a possibilidade de eleger o António com quem prefere disputar eleições. Garantidamente, um deles ganhará. E perderemos todos se nada fizermos para que as próximas legislativas voltem a ser mais uma oportunidade perdida de devolvermos à democracia a esperança que permitimos que o rotativismo passa-culpas nos fosse roubando.

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