sábado, 6 de setembro de 2014

Hoje até choveu


Foi numa Sexta-feira. Ontem. O país das políticas estrebuchava após mais de doze anos de austeridade em vias de se tornar eterna se nada se fizer em contrário. O país dos governantes irresponsáveis e incompetentes desdobrava-se em entrevistas para explicar o inexplicável sobre uma reforma da Justiça que a afastará de onde é necessária, de perto dos cidadãos, e que começou num caos feito de milhões de páginas de processos em trânsito pelos ares e com o sistema informático que lhe serve de suporte completamente paralisado. O país da impunidade engordava com mais um banco falido que todos iremos pagar. O país das claques partidárias do arco disto tudo entoava os cânticos do costume, "o meu partido é melhor do que o teu". O país do abstencionismo vociferante, como o próprio nome indica, vociferava a bom vociferar na esperança de que a vidinha melhore por efeito directo da sonoridade dos seus insultos sobre a inconsciência surda de quem lhes decide os destinos com a garantia de que tal ruído não conta para o seu totobola. O país do abstencionismo não te rales lia a Caras enquanto esperava pela hora da telenovela.

Nisto, todos pararam para receber a notícia "Face Oculta: todos condenados num dia histórico para a Justiça". Hoje até choveu. "Vitória, vitória", como se fosse aqui que terminasse a história. Não terminou. Todos os condenados irão recorrer e não é inédito que corruptos inicialmente condenados a penas de 6 ou 7 anos   de prisão acabem depois por ver a pena reduzida no número de anos e a prisão efectiva transformada em trabalhos alegadamente prestados à comunidade em instituições de solidariedade dirigidas por gente amiga, uma moda judicial muito em voga nos dias que correm.

Valeria a pena moderar o entusiasmo. Reparar que o Face Oculta se trata de um caso sem grande complexidade, que não envolve nem somas astronómicas, nem grandes tubarões. Não me parece que seja o caso, e há que enaltecer o excelente trabalho de uma equipa de profissionais que pôde trabalhar numa unidade especializada em criminalidade económica bem dotada de meios humanos e materiais, mas não custaria nada aos tubarões sacrificarem dois carapaus e um jaquinzinho coleccionador de carros de corrida para acalmarem as águas e poderem nadar mais à vontade.

Seja lá como for, amanhã é Domingo. E depois é Segunda-feira, tudo regressa a uma normalidade que exclui a condenação de corruptos como regra e a impunidade como excepção. Nada mudará enquanto o poder de fazer as leis e de ditar como estas são aplicadas permanecerem nas mãos de quem nos fez os dias assim. A impunidade tem-nos ajudado a necessitarem de cada vez menos votos para manterem esse poder. Que uma excepção não os ajude a necessitarem de ainda menos. À Justiça o que é da Justiça, aos cidadãos o que compete aos cidadãos. Fazerem a democracia funcionar. Porque só a democracia faz funcionar a Justiça. E porque a democracia só funciona se a Justiça funcionar.

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