sábado, 20 de setembro de 2014

Gostei de ler: "Marinho e Pinto saiu do armário"


«(...) O antigo bastonário foi mestre na mais fina arte populista: a caça ao voto com o tiro aos políticos. O que é surpreendente nesta história é que Marinho não tenha sequer aguentado 3 meses sem se revelar, ele mesmo, a mais perfeita representação dos políticos que caricaturava. Marinho Pinto pediu os votos para o MPT, que hoje admite ter usado apenas como barriga de aluguer, apresentando-se como de esquerda, apesar de hoje estar integrado no grupo europeu dos liberais. Bem sabemos que foi uma solução de recurso. Os Verdes europeus - a primeira escolha - é que não levaram muito a bem a declarações homofóbicas do então candidato português.

Marinho e Pinto prometeu ser um "formiguinha" em Bruxelas, mas já disse que não cumprirá o mandato para se poder candidatar às legislativas e, logo a seguir, às presidenciais. O formigueiro de Bruxelas não era senão um trampolim político para o homem que, quem sabe, ainda vamos ver um dia candidatar-se à Casa dos Segredos, se achar que as noites com a Teresa Guilherme lhe podem dar mais votos que as manhãs do Goucha.

Marinho Pinto foi eleito porque denunciava os privilégios dos políticos, os seus salários e regalias. Cresceu com o "são todos iguais". Hoje, acha que o salário de eurodeputado é "vergonhoso" mas que, por via das dúvidas, vai mantê-lo até saber se consegue ser eleito deputado nacional. Um sacrifício pela pátria, está visto, já que o salário de bastonário, €4800, "não dá para muito", e muito menos o de deputado nacional, muito abaixo desse valor.

E é assim que, em pouco mais de três meses, Marinho e Pinto consegue contrafazer tudo o que prometeu em campanha. O seu populismo revelou-se inversamente proporcional ao contributo político que teve para oferecer. Ainda não vimos o deputado europeu a lutar por menos impostos, por salários dignos, por mais direitos. Até agora, só a atrocidade de lamentar um salário de €4800 no mesmo país em que a média das pessoas não ganha mais de €900, e que mais de meio milhão vive com €485 mensais.

O populismo que toma os políticos como um todo, que se alimenta do descontentamento popular oferecendo respostas fáceis, exagerando os factos, encontrando bodes expiatórios, em nada contribui para a democracia. Pelo contrário, descredibiliza-a, afasta-a das pessoas, menoriza-a, sem resolver nenhum dos problemas de fundo: a pobreza, o rotativismo incessante, a certeza de poder pouco perante a corrupção e os grandes interesses financeiros.

Se há abusos, acabe-se com eles, mas com a coragem de rejeitar as derivas populistas que em nada contribuem para aprofundar a democracia portuguesa e para fazer da política um verdadeiro instrumento de cidadania ao serviço daqueles que cá vivem. Tem de ser possível. Afinal, não somos todos iguais a Marinho e Pinto.» – Mariana Mortágua, no Expresso.

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