quinta-feira, 25 de setembro de 2014

A hora do fantoche


Dá sempre jeito ter na mão um governante com um passado nebuloso: tu que sabes que eu sei o que andaste a fazer no Verão dos subsídios comunitários nunca vais ousar sequer pensar em não fazeres o que for mais conveniente para mim quando houver uma privatização de um monopólio natural que me garante uma renda para todo o sempre, quando aparecer do nada o buraco de um banco para tapar com dinheiros públicos, quando tiveres que escolher entre aumentar os impostos sobre o trabalho e tributar as grandes fortunas, quando eu precisar de um perdão fiscal, quando a exploração de um serviço público for dada a um privado, quando o Estado necessitar de um fornecedor de bens ou serviços como tu sabes que eu sou. E o tal governante mafioso tem tanto mais a perder quanto mais a sua aceitação depender da imagem de pater moralista que dá o exemplo de ir de Clio passar férias à Mantarrota e de pôr os ministros a viajar em classe económica para mostrar como estamos pobrezinhos e a seguir desatar a vender empresas públicas ao desbarato e a cortar e a congelar os salários que deixam de sair do bolso de quem enriquece na proporção da pobreza assim gerada. Nós, público, só vemos o que nos é dado a ver por quem mexe os cordelinhos que fazem mexer o fantoche e ao sabor das suas conveniências.

O caso Tecnoforma foi-nos dado a conhecer em duas tranches. Nunca saberemos se a primeira foi um aviso para intimidar quem sabemos que tanto cortou, privatizou, concessionou, novo-bancou. Mas sabemos que a segunda aparece num momento excepcionalmente bem escolhido. O PCP está onde sempre esteve, atrás de um muro que já não existe há um quarto de século. O BE vai tratando de desaparecer de vez, a alucinação desta semana pretende que “és boa”, um piropo, seja punido com a pena de prisão que a nossa legislação não prevê para “és feia”, “és gorda” ou até para o pior dos insultos. O PS está prestes a concluir a triste procissão dos antónios completamente descredibilizado pela pobreza patenteada no trajecto. O Governo PSD/CDS vai demonstrando que está esgotado, ora resolvendo com folhinhas deExcel o caos que apenas uma aplicação como o Citius quando funcionava poderia resolver, ora com pedidos de desculpa na vez das demissões que se vão adiando, ora com as estatísticas de um descalabro económico e social que o optimismo completamente consumido da sua propaganda e o seu exército de comentadores já não conseguem disfarçar.

O PSD quer manter-se no poder e sabe que dificilmente o conseguirá com Pedro Passos Coelho. Que jeito daria se caísse agora. Houve denúncia anónima.  Que jeito daria apresentar-se a eleições, deixa cá ver, por exemplo com alguém como Rui Rio no seu lugar. António Costa, o António mais bem posicionado para ganhar a corrida no PS, até fez o favor de assumir publicamente que um entendimento com o PSD de Rui Rio é uma ideia que lhe agrada muito. E é uma ideia que com toda a certeza ainda agradará mais a Cavaco Silva, que poderá sair do seu torpor a qualquer momento. Não é todos os dias que surge uma oportunidade destas para insuflar uma coligação com expressão parlamentar suficiente para rever a Constituição e pulverizar o que ainda resta do que conquistámos em democracia. Já vimos de tudo, é impossível prever se Passos Coelho resistirá a mais esta ou não. Mas que faz sentido que caia agora, quer-me cá parecer que sim. Seria a forma mais airosa de aguentar o regime durante mais uns tempos. Pelo menos até que não sobre nada que valha o suficiente para alimentar a fome de poder do centrão que nos tem a saque.

3 comentários:

Anónimo disse...

houve alguma, em algum tempo, num qualquer lugar que funcionasse após o 25 de abril Filipe? vives afinal de quê? és um eremita em meditação na serra de S. Macário? vives povoado de fantasmas pá... na verdade, o que penso mesmo é que dever ser doloroso teres de e engolir tanto lixo que já escreveste...chega-te á frente...mostra-te á sociedade...és único...

Filipe Tourais disse...

Quando se ataca o autor em vez de atacar o texto é bom sinal.

José Amílcar disse...

José Amílcar Carvalho
Por que será que tantos sucessores dos escrevinhadores de retretes se tapam com o anonimato?
As caixas de comentários estão pejadas de "comentadores" cheios de medo de si mesmos; é por cobardia, só?