quarta-feira, 10 de setembro de 2014

E se falassem de política?


No final do tão aguardado embate entre Costa e Seguro, ontem à noite, verbalizei no meu facebook a inquietação que me acompanhou durante todo o espectáculo: “Costa ou Seguro. Ou Passos Coelho. Gostava que me dessem um argumento político, um só, que justifique a preferência por um, pelo outro ou pelo terceiro. Estilo, aspecto, timbre de voz, firmeza aparente, capacidade de mobilização não são argumentos políticos, bem entendido. Isso é espectáculo, conversa de facção. Refiro-me a estratégia, a opções políticas, a coisas que possam mudar as nossas vidas, a política mesmo. Isto anda tão mau que até temos que explicar o que é política.”
Leio hoje o artigo de Nuno Saraiva, no I, e a inquietação que expressa é a mesma: e se falassem de política? «A estratégia era clara e previsível. Seguro partiu para o debate com o firme propósito de se vitimizar. Fê-lo durante 20 minutos, dos 35 que estavam reservados para o primeiro round do combate com Costa. Reafirmou-se traído, vítima de deslealdade, órfão de solidariedade, e quis colar o seu adversário nas primárias a José Sócrates, de quem, fez questão de o recordar uma meia dúzia de vezes, foi número dois no Governo e no partido. Deste ponto de vista, e só deste, Seguro ganhou o debate. Surpreendeu pela agressividade e acutilância e obrigou Costa, pouco habituado à proximidade com as cordas do ringue, a defender-se. Não sei se Seguro conquistou novos apoios. Desconheço, aliás, se era esse o fim a que se propôs. Ouvi, porém, à boca da sala comentar-se "coitado do António". Era de Seguro que falavam. Com pena, daquela que se tem de quem sofre maus-tratos ou é lamechas. No campeonato do Calimero, a derrota de Costa foi, portanto, estrondosa. No que importa, no campo da política, perderam os dois. Nenhuma ideia, nenhuma proposta, sobre aquilo que verdadeiramente conta para a nossa vida. Nem uma palavra sobre o que fazer à dívida que nos sufoca, ou como garantir a sustentabilidade da Segurança Social que faz das pensões uma incógnita, ou como lidar com um Tratado Orçamental injusto e incumprível numa Europa germanizada, ou como devolver o País à rota do crescimento sustentável, ou como atalhar o flagelo do desemprego, ou... Nada, a não ser generalidades, alguma demagogia e muita vacuidade. Hoje, é o segundo assalto. Esperemos que as contas estejam definitivamente ajustadas e que se fale de política para as pessoas e das pessoas. Porque é isso que se exige a quem aspira ser primeiro-ministro. Que se afirme como alternativa. Que diga, preto no branco, porque é que é diferente, para melhor, do outro. Agora, se esta noite a lengalenga for a mesma, de um lado a súplica por compaixão - já não há paciência - e do outro o vazio de propostas, Passos Coelho dormirá, seguramente, mais descansado.»

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