segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Ainda sobre as "primárias"


Podia ter sido uma vitória magra, de Pirro, numas eleições pouco participadas e controladas pelo aparelho do partido. Caso tivesse sido assim, seria forçado a concordar com o Francisco Louçã no que escreve quanto à democracia ter ficado esburacada e ter saído a perder com as primárias do PS. Calhou não ter sido assim, e reforço o calhou, porque aos dois riscos que mencionei atrás soma-se pelo menos ainda mais um, eleições abertas a “simpatizantes” estão-no também a “antipatizantes”, aos quais é dada a possibilidade de se organizarem ou para elegerem o candidato mais macio e facilmente derrotável em legislativas, ou para reduzirem uma vitória que apenas com simpatizantes seria garantidamente folgada a uma vitória tangencial, que corroeria sempre a legitimidade e a autoridade do vencedor.

Embora a pretexto de uma aberração, a eleição do candidato a Primeiro-ministro, o PS viu-se livre de uma liderança que controlava a máquina do partido mas com a qual a sua base eleitoral não se identificava e, nessa medida, reduziu o risco de desintegração associado a esse fosso. Tivesse o Bloco sabido fazer o mesmo no momento certo e ter-se-ia evitado a agonia dos últimos anos, mas Francisco Louçã achou mais democrático designar sucessão e a máquina obedeceu-lhe. A democracia que se prega para a casa dos outros nem sempre é a mesma que se escolhe para esburacar a própria casa. Acontece aos melhores.

Regressando ao PS e às primárias, também a mim me inquieta o mistério do entusiasmo gerado pela vitória de Costa. Escreve Francisco Louçã: “Costa polarizará voto útil contra a coligação PSD-CDS e o PS entrará em 2015 com a maior das ambições: uma maioria, um governo, um presidente. Pode conseguir tudo. A pergunta é: para fazer o quê? E aqui começa o TPC de António Costa. O próximo governo tem a obrigação, por Tratado Orçamental, de agravar a austeridade. Não tem agenda de década, só cortes perpétuos. Não há salários ou pensões, só dívida. Por isso, o primeiro trabalho de Costa será explicar como vai pagar ou como vai cortar. O segundo trabalho é apresentar uma ideia para responder à irrelevância europeia de Portugal e, pior, ao perigo europeu. Que não seja a mão estendida, triste decadência. Ora, o arrojo é também um mundo novo cheio de riscos.”

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