quarta-feira, 27 de agosto de 2014

"Socialistas": a direita canhota


condutor

«François Hollande, Monsieur le Président, empossa hoje o segundo governo de Manuel Valls, o seu rival e salvador, que devia ter restabelecido a pose da maioria mas que só somou desgraças: perdeu as eleições europeias para Marinne Le Pen e caiu 20% nas sondagens em três meses. Se era a última cartada do Presidente mais impopular da Vª República, então fracassou tristemente. Nem o autoritarismo de Valls, nem o seu frenesim sarkoziano, nem a sua xenofobia concorrencial com a extrema-direita, nada serviu para refazer o contrato presidencial.


É certo que tudo começou mal. A campanha prometera um novo farol para a social-democracia: Hollande seria o de uma nova Europa, o homem que faria frente a Merkel e que corrigiria os desmandos financistas de Schauble, impondo um musculado Anexo ao Tratado Orçamental, de modo a salvar a União, reconduzida ao caminho sensato do emprego e das pessoas. Duas semanas depois de ter tomado posse, Hollande ouviu o ralhete da Chanceler, o Anexo de Hollande finou-se sem glória e o Presidente voltou para a mansidão do Eliseu, esquecido pela Europa e vergado à canga do Tratado.

Desde então, a história continuou a piorar, a luz do farol desvaneceu-se e Monsieur Le Président inaugurou a era da austeridade. Recorreu para isso a Valls, o socialista disponível mais parecido com a direita. Agora, o segundo governo Valls, reconhecendo o impasse – a França não consegue um ajustamento orçamental suficiente, a economia ressente-se, o desemprego não diminui, as tensões aumentam – resolve o assunto ao modo prussiano, com mais cortes e mais austeridade.

Dois ministros que se atreveram a criticar a solução neoliberal da austeridade e do desemprego, Montebourg e Hamon, foram enxotados sem uma carta de recomendação, curiosamente no mesmo dia em que a Europa e os mercados financeiros aplaudem as palavras de Draghi: um pouco menos de austeridade, se faz favor. O FMI, pelo seu lado, pede aumentos de salários na Alemanha. Um pouco menos de austeridade, que a deflacção ameaça e a recessão se prolonga já por seis anos.

Valls, impávido, e Hollande, solene como sempre, continuarão no entanto o caminho presidencial, indiferentes a essas querelas que temem mais do que tudo, porque já verificaram que são mais as vozes do que as nozes. Austeridade será.

Para a Europa, é simplesmente a confirmação de que, passados os arroubos eleitorais, a pesada realidade se impõe e Berlim manda como quer. Mas, para os socialistas que queriam um vislumbre de esperança, fica o espelho cruel: afinal, o seu herói é uma miragem de Merkel. E, finalmente, para Portugal, enterra-se a derradeira e mirrada esperança de que, se a Europa ainda fosse gerida pelo duo Alemanha-França, o poder era divisível e um deles talvez procurasse aliados para qualquer pequena barganha e se lembrasse de nós. Não se lembram, a Europa não existe e Hollande também não. A vida é assim.» – Francisco Louçã, “Hollande, uma fraude contra a Europa




«Amarrados ao "cumprimento dos nossos compromissos externos", não há alternativa. Esta frase da moção de António Costa é exemplar da quadratura do círculo em que os partidos socialistas europeus estão implicados - e que, chame-se o líder Costa, Seguro, Hollande, Renzi ou rato Mickey, não dão mostras de conseguir ultrapassar. Ora vamos lá a ver: António Costa defende que a recuperação económica e social "tem de integrar um novo equilíbrio entre um sério cumprimento dos nossos compromissos externos no quadro da União Económica e Monetária" - aqui está a frase maldita que muitos juravam que Costa nunca pronunciaria - com "o respeito das responsabilidades constitucionais" e também com "uma renovada capacidade para dar resposta às necessidades de desenvolvimento da nossa sociedade".

A verdade é que "os compromissos externos" são exactamente aqueles que o governo tem esgrimido como principal motivo da devastação económica e social a que assistimos nos últimos três anos. Pode dizer-se que o governo gosta da política em vigor na União Europeia e o PS não gosta - isto é uma verdade, venha ela do socialista Costa ou do socialista Seguro. Mas uma coisa é não gostar, outra é pôr em causa esses compromissos, através de propostas de renegociação de dívida e quejandos: e nisso os dois candidatos às primárias estão de acordo. Estamos vinculados "a um sério cumprimento dos nossos compromissos", diz António Costa, que é basicamente o mesmo que dizia António José Seguro quando a ala mais à esquerda que hoje apoia António Costa atacava Seguro pela sua complacência face a esses "compromissos". Tudo isto acaba por ser um bocadinho cómico.

Claro que Costa defende outra atitude perante a Europa com que Passos não concorda - mas que Seguro, por acaso, também defende. Aliás, defendem os dois o mesmo. Cito a moção de Costa: "É no quadro da negociação destas novas políticas europeias que o PS se deve comprometer a trabalhar para encontrar um novo equilíbrio entre os compromissos assumidos em matéria orçamental, a necessidade de reduzir os custos da dívida pública e a urgência de políticas para mais crescimento e emprego." Isto era bom que acontecesse, mas até agora não aconteceu. Um senhor chamado François Hollande, presidente da República Francesa, um país com muito mais poder que Portugal no quadro europeu, não conseguiu nada. A maioria na UE que manda é contra. A política socialista (não importa quem é o protagonista) resume-se a rezar.» – Ana Sá Lopes, “O plano económico do PS é rezar”.

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