sábado, 30 de agosto de 2014

O comboio descendente




No comboio descendente, vinha tudo à gargalhada, uns por verem rir os outros, os outros sem ser por nada. Metro de Lisboa, Carris, Metro do Porto, STCP, Transtejo, CP. Em Novembro passado  o Governo fez saber que em todos eles a lógica da utilidade que deve prevalecer na gestão de qualquer serviço público será substituída pela lógica do lucro que a então anunciada concessão de todos eles proporcionará aos privados que os vierem a explorar. "Privatização" será uma ideia demasiado abstracta, não se notou qualquer reacção popular. Mas a mesma ausência de reacções repetiu-se já no plano do concreto durante esta semana em que ficámos a saber que a privatização da Linha de Cascais se fará sem comboios novos, com composições com menos carruagens, desaparecendo os chamados comboios rápidos e com uma oferta reduzida também na frequência, que será mais espaçada e com paragens em todas as estações. Nem mesmo com o cenário de uma qualidade  de vida drasticamente amputada por saídas de casa um par de horas mais cedo e por regressos outro par de horas mais tarde os utentes da Linha de Cascais esboçaram a mais ligeira reacção. Uns mais esclarecidos, outros completamente idiotas a convidarem a uma resignação alicerçada em alegados políticos todos iguais que se passeiam em automóveis de luxo, Leram-se umas bocas nas redes sociais e nas caixas de comentários dos jornais online, mas tudo isto é virtual. No comboio descendente, vinha tudo à gargalhada, uns por verem rir os outros, os outros sem ser por nada. E não, a culpa não é da falta de proximidade entre eleitos e eleitores, como se ouviu por aí também durante a semana que hoje termina, nem da falta de qualidade dos nossos políticos. Quando era deputado, durante a legislatura anterior, José Manuel Pureza, eleito pelo círculo de Coimbra,  tudo fez para evitar a desactivação do Ramal da Lousã. Obteve como prémio de todo o seu excelente trabalho a não reeleição. Somos um povo muito reconhecido a quem se sai por nós. A culpa é sempre dos outros.


"No comboio descendente" pertence ao álbum de José Afonso "Eu vou ser como a toupeira" (1972).

2 comentários:

Gi disse...

Não percebo. Já há muitos anos não ando de comboio na linha de Cascais, mas houve tempo em que o fazia diariamente. Os comboios rápidos não são rentáveis? Não há passageiros para sete carruagens? A quem convém essas transformações?

Filipe Tourais disse...

Note como se enreda no "não ser rentável". Os serviços públicos não têm como finalidade serem rentáveis, têm é que servir o melhor possível as populações. É para isso que pagamos impostos, não para alimentar juros agiotas ou para compensar a delinquência de banqueiros falidos.