segunda-feira, 25 de agosto de 2014

A gosto



Lá num país cheio de cor, viveu um dia um banqueiro, bem conhecido do centrão pela amizade, pela alegria e pela generosidade. Governantes, reguladores e comentadores, todos lhe chamavam a pequena abelha Maia, fresca, bela e doce abelha Maia. Por isso, Maia voou sem parar, no seu mundo sem maldade. Durante as últimas décadas, contaram-nos uma história que poderia resumir-se mais ou menos assim. Outro refrão fazia correr boatos sobre intimidades com um tal Calimero, mas a versão era bastante malcriada e continha sujidades impróprias para serem contadas a um público infantil, poucos lhe fizeram caso. Até ao início deste mês, quando o escândalo rebentou. Que vergonha. Enganaram-nos. A nossa Maia afinal não era santinha nenhuma. Por sorte, a bomba rebentou em Agosto, um mês com vocação para ser ainda mais estúpido do que os outros. Ou então teria acontecido exactamente o mesmo a quem nos andou a enganar: nada. O grupo Espírito Santo implodiu mercê da delinquência dos seus administradores sem uma única prisão e sem qualquer congelamento do património dos eventuais responsáveis. Governantes, reguladores e comentadores puderam andar a alimentar a mentira de um BES sólido e solvente para que aqueles que nunca podem perder se conseguissem desfazer das acções que passaram a valer zero no dia em que os primeiros admitiram a mentira, novamente sem uma única prisão e igualmente sem uma única demissão. O Governo das austeridades pôde ir buscar ao mesmo saco onde não encontra dinheiro para pagar serviços públicos, salários, pensões e prestações sociais o equivalente a um ano de Serviço Nacional de Saúde para emprestá-lo a juros sociais a um banco bom que, se realmente o fosse, não necessitaria de ajudas estatais para rigorosamente nada. Tudo isto sem que as ruas se enchessem de gente a protestar contra mais este roubo. Tudo isto sem que as sondagens evidenciassem o mais ligeiro sinal de que os portugueses querem mudar de vida. Cá neste país cheio de cor tudo pode acontecer. E tudo vai acontecendo.

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