quinta-feira, 28 de agosto de 2014

A confiança ainda não está com saudades nossas



É um daqueles termos estúpidos que muitos repetem porque lhes entrou no ouvido e porque os outros também o repetem. Nada tem de sentimento e pouco tem de económico, mas o seu nome é “sentimento económico”, estranha graça para o resultado de um inquérito que alegadamente mede expectativas que alegadamente indiciam a tal “confiança” que, por sua vez, alegadamente é o motor dos motores da economia. O neoliberalismo é assim, vai saltitando de alegadamente em alegadamente, ao ritmo da sua criatividade semântica, convenientemente repetida na comunicação social por alegados “especialistas” em economia que ajudam governantes a disfarçarem fracassos consumados misturando preocupações aparentemente muito responsáveis quanto ao presente com expectativas optimistas relativamente a um futuro invariavelmente risonho.

Uma das não notícias do dia é precisamente a alegada preocupação do comissário europeu dos Assuntos Económicos com a queda no indicador de “sentimento económico” registada em Agosto na Europa. Diz o senhor Jyrki Katainen que sem confiança não haverá o indispensável aumento do investimento, isto é, apesar do cenário de deflação ser cada vez mais provável, o sucessor de Olli Rehn também acha que a confiança dos investidores irá regressar assim do nada, sem o impulso do investimento público que a ditadura orçamental que representa proíbe e sem a revitalização do consumo privado que a flexibilização das relações laborais e o achatamento salarial que a mesma irracionalidade económica impôs foi pulverizando.

Como se reflectiria no tal “sentimento económico” o anúncio de um regresso ao paradigma daquela Europa social que durante décadas obrigou o crescimento económico a andar de braço dado com o aumento constante do bem-estar dos europeus e com a diminuição das desigualdades? A confiança restabelece-se com fórmulas de sucesso mas Bruxelas insiste em tentar convencer-nos que vai fazê-la regressar insistindo numa fórmula que nunca produziu mais do que fracassos. Tudo se resume a acreditar com muita força nos “sentimentos económicos”. Um dia, quando menos a esperarmos, a confiança há-de sentir saudades nossas. Basta esperaá-la.

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