quarta-feira, 16 de julho de 2014

Ou temos filhos, ou temos ricos



Passos Coelho andou a convidar os nossos jovens a emigrar. Agora diz estar muito preocupado com a natalidade e promete pôr toda a gente a procriar. Como? Quem não tem emprego evita ter filhos. Teria lógica que fosse aumentando as protecções sociais no desemprego. Quem não tem dinheiro, idem. Impunha-se uma actualização do salário mínimo e a aprovação de legislação que obrigasse as empresas a indexar as actualizações salariais aos lucros e ao salário das suas administrações. Quem vive um quotidiano de incerteza, a menos que ou tome umas coisas ou seja atrasado mental, em princípio também evita ter filhos. Haveria que combater a precariedade e legislar no sentido de minimizar a insegurança no trabalho. Quem vê escolas e centros de saúde a serem diariamente encerrados pensa três vezes antes de decidir ter um filho. Haveria que inverter este cenário.

É óbvio que os "peritos" a quem Passos Coelho encomendou o pacote de medidas que hoje apresentou não podiam defender nada disto. O Governo andou três anos a fazer o país caminhar no sentido contrário, mandavam-nos procriar logo a seguir. Restou-lhes fazer de conta que o desemprego jovem não ronda os 40%, que o trabalho temporário e os falsos recibos  verdes não deixaram de ser a excepção para passarem a ser a regra, que os despedimentos nunca foram tão fáceis e tão baratos, que os jovens auferem rendimentos suficientes para pagarem impostos, que a compra de carro novo é factor que influencia a decisão de ser pai ou mãe da grande maioria.

Por tudo isto, a natalidade de Passos Coelho aumenta reduzindo o IRS a uma faixa etária que está isenta ou por desemprego ou por receber salários muito baixos, por reduzir o ISV a quem nem sequer em sonhos consegue ter carro próprio, por prolongar a licença de paternidade e maternidade a quem nunca teve e não tem perspectivas de alguma vez vir a ter um contrato de trabalho. Está-se mesmo a ver que natalidade NÃO vamos ter. Nunca mais vamos ter. O actual Governo conseguiu superar todos os anteriores no objectivo de enriquecer uma minoria empobrecendo toda a restante maioria. Um quarto da riqueza de Portugal está nas mãos de 1% da população. Dos Salgados donos disto tudo, dos Belmiros donos disto tudo, dos Amorins donos disto tudo. Passos Coelho que se deixe de contos. Ou temos ricos, ou temos filhos. A natalidade desapareceu para ali.

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