sábado, 12 de julho de 2014

Gritos e golos


Dificilmente alguém presta atenção ao o incêndio que destrói a casa do vizinho do quarteirão ao lado quando a sua também está a arder. A nossa vai ardendo.  Ainda mais dificilmente se esse incêndio nem sequer for capaz de despertar os habitantes da casa de um embotamento que os impele a ignorar e nada fazer contra as labaredas até ao preciso momento em que sentem o próprio traseiro a arder, embora nesse caso o problema suscitado pelo malfadado imprevisto continue a não ser o incêndio que destrói a casa  e sim o de um cu com azar. Há muitos assim.  Mas até os cus com azar têm sorte. Às vezes, aparece um campeonato do mundo de futebol que os senta diante de um televisor e o fogo extingue-se como por magia. Por asfixia no caso dos cus mesmo cus. por alienação no caso dos cus de que tratam estas linhas.

Sei que deles não se pode esperar grande coisa, mas gostava que mais logo à noite, quando se sentarem em frente ao televisor para desfrutarem do espectáculo Brasil-Holanda, soubessem das 9 pessoas que morreram e das 15 que ficaram feridas enquanto faziam uma coisa tão normal como a que estarão a fazer nesse preciso momento: todas essas pessoas assistiam ao Argentina-Holanda de Quarta-feira passada. Pode ser que perguntem onde aconteceu a tragédia e que a resposta os conduza à conclusão de que não se tratou de mera tragédia e sim de um crime contra a humanidade que está a acontecer há muito tempo com a cumplicidade do Ocidente, basta reparar do minuto de silêncio que não se fará no Estádio de Brasília antes do jogo de logo mais. A resposta é: o crime aconteceu em Gaza. A resposta é: o crime acontece em Gaza todos os dias.

 Gaza é o maior campo de concentração que alguma vez foi construído em todo o mundo, incomparavelmente  maior do que a soma de todos os que os nazis construíram para exterminar judeus. E Gaza é uma criação do estado judeu de Israel. São 360 quilómetros quadrados (*) hermeticamente vedados por  um muro que os israelitas construíram ilegalmente ao seu redor, onde vivem o milhão e meio de habitantes que os melhores amigos da América encurralaram primeiro para bombardearem depois. Os bombardeamentos intensificaram-se nestes últimos cinco dias. Os israelitas já mataram pelo menos 121 palestinianos. Não sou dos que alinham em discursos fáceis que culpam o futebol dos males do mundo, eles acontecem com e sem futebóis e há pessoas tão vazias que nem sequer por futebol se interessam. Escrevo estas linhas para convidar quem as leia a ouvir em cada grito de golo que ecoe pelo planeta nas próximas duas noites os gritos de todos os homens, mulheres e crianças inocentes que os israelitas vão chacinando impunemente no quarteirão ao lado. Um jogo de futebol dura entre 90 e 120 minutos. Os israelitas estão a matar um palestiniano por hora.


(*) O Concelho de Leiria – e atenção que não é o Distrito de Leiria –  tem 562 quilómetros quadrados e uma população de cerca de 126 mil habitantes. Se tivesse a mesma densidade da Faixa de Gaza, um quarto da população portuguesa viveria no Concelho de Leiria (mapas e dados aqui).

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