sexta-feira, 18 de julho de 2014

Gostei de ler: "Vem aí um furacão e só começou a chover agora"

O pôr-do-sol num paraíso fiscal

«Existe uma espécie de omertá entre os poderosos do país - que, todos juntos, não enchem uma casa da Quinta da Marinha -, que permitiu que o escândalo BES fosse abafado quase até ao momento do estertor final. Foi a mesma omertá que fez com que o BPN se aguentasse tanto tempo de pé, com o patrocínio de muitos poderosos do país, e muito depois de as irregularidades no banco de Dias Loureiro terem vindo a público.

As elites portuguesas não primam pela "ética republicana" e habituaram-se a conviver com uma fórmula que o Exército dos Estados Unidos usava para lidar com os homossexuais: "Don't ask, don't tell." Irregularidades? Negócios suspeitos? Favorecimento de amigos? Tráfico de influências? Não perguntem, não contem. Esta maneira de viver tem consolado todos os comensais e permitido a cada um recolher, à vez, as respectivas fatias do bolo disponível - irmãmente, como se dizia dantes.

Foi este regime apodrecido que permitiu que o devotamente chamado "único banqueiro" do país - e hoje tratado como cão pelos que o incensavam - chegasse onde chegou, com o risco enorme de arrastar meio país consigo. O BPN não era um banco sistémico, o BES, pertença do Grupo Espírito Santo, é um banco sistémico. Dito de outra maneira: é como se fosse o nosso Lehman Brothers. E neste momento não se sabe o fim da história.

A ideia de que o Banco de Portugal teve um comportamento exemplar - ao contrário do que se tinha passado com o anterior governador, Vítor Constâncio, relativamente ao BPN - é uma teoria que resiste tão bem aos testes de stresse como resistiu o BES durante estes anos de avaliações europeias. Em Fevereiro de 2013 - há quase ano e meio -, depois de o  i  noticiar o esquecimento de 8,5 milhões na declaração de impostos de Ricardo Salgado, o Banco de Portugal trata de produzir um raro comunicado em que declara toda a sua confiança em Ricardo Salgado. Sim, o Banco de Portugal tinha pedido "explicações", mas depois disso ficou muito satisfeito. Naquela peça não tão antiga assim, o governador afiança que "as informações recolhidas pelo banco não fundamentam as suspeitas lançadas pela comunicação social". Enquanto o poder de Ricardo Salgado parecia imutável, o Banco de Portugal preferiu lançar as culpas para o mensageiro. Não foi o único: este é o modo de actuar da elite portuguesa, que só se distancia dos seus quando estão mortos. O BES é o regime, a crise do BES é a crise do regime.» – Ana Sá Lopes, no I.


Vagamente relacionado: A criação de uma almofada de segurança de [apenas?] 700 milhões de euros, na ESFG foi uma imposição do Banco de Portugal, após várias denúncias a alertar para o facto de o BES, através da sua rede de retalho, estar a colocar dívida de sociedades familiares não financeiras, de que se desconheciam os riscos: ou seja, estava a usar os clientes para financiar as empresas do grupo. As queixas (e perguntas de clientes), que chegaram ao BdP e à CMVM, partiram de entidades do universo financeiro, mas também do presidente da Semapa Pedro Queiroz Pereira. No Verão de 2013, o ex-accionista do GES foi levar ao BdP vários dossiers com informações das holdings, actuação que surgiu no quadro de um braço-de-ferro travado com Ricardo Salgado e que terminou, no final do ano, com uma divisão de interesses), e depois de, em Agosto de 2013, dois fundos de investimento (com aplicações de curto prazo, idênticas a depósitos à ordem) geridos pela ESAF - o ES Liquidez e o ES Rendimento - terem canalizado, via holdings dominantes, para a Espírito Santo International e a ES Irmãos, mais de 2,2 mil milhões de euros para empresas da Rio Forte (que agrega os interesses não financeiros do GES e, por não ser cotada, não está sujeita a escrutínio.


1 comentário:

fb disse...

Foi este regime apodrecido que permitiu que o devotamente chamado "único banqueiro" do país - e hoje tratado como cão pelos que o incensavam - chegasse onde chegou, com o risco enorme de arrastar meio país consigo. O BPN não era um banco sistémico, o BES, pertença do Grupo Espírito Santo, é um banco sistémico. Dito de outra maneira: é como se fosse o nosso Lehman Brothers. E neste momento não se sabe o fim da história.