terça-feira, 15 de julho de 2014

Gostei de ler: "Ciência – crónica de uma morte anunciada!"



«O Governo está a impor novos cortes na Ciência, desta vez, nas unidades de investigação. Estes cortes cegos, baseados em análises duvidosas e pouco transparentes, têm merecido constantes críticas e manifestações de desagrado por parte da comunidade científica, o que tem levado a uma desacreditação progressiva daquela que em tempos foi uma instituição na qual os cientistas confiavam – a Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT).

No final do ano passado, registaram-se cortes drásticos nas bolsas de doutoramento (-40%) e de pós-doutoramento (- 65%), condenando deste modo toda uma geração de investigadores e procedendo a uma “destruição criativa” da Ciência, como assim a apelidou o conceituado investigador Manuel Sobrinho Simões.

A fuga de cérebros está em curso e o país perde o seu melhor capital humano, que outros aproveitarão sem os inerentes custos de investimento associados a estas formações altamente qualificadas. Será este, porventura, um dos piores exemplos de má governação – desperdício do potencial humano, morte de instituições e projetos cujo retorno económico para o país é por de mais evidente!

Este cenário calamitoso é agora reforçado com a publicitação dos resultados referentes à primeira fase de avaliação das unidades de investigação, cujo número de cientistas “sentenciados à morte”, como assim os designou o investigador Carlos Fiolhais, é de 5187 num total de 15.444 investigadores.

A avaliação das unidades de investigação científica e de desenvolvimento tecnológico promovida pela FCT, que para o efeito se fez substituir pela European Science Foundation, cuja credibilidade está a ser muito questionada pela comunidade científica, já excluiu de qualquer apoio 71 dessas unidades, às quais se encontram associados 1904 membros, e remeteu para um financiamento de base, com tempo de vida contado, mais 83, com 3283 investigadores associados. Ou seja, a curto prazo cerca de metade das unidades de investigação, 154 num universo de 322, serão condenadas à morte e mais de cinco mil investigadores terão de emigrar se quiserem continuar a investigar.

É chocante verificar que muitos dos cientistas que estão a ser dispensados em diversos setores estratégicos como a Matemática, a Física, a Engenharia, a Sociologia, entre outras, foram galardoados com distinções nacionais e internacionais. Não servem para fazer investigação, mas servem para projetar no exterior a ciência que em Portugal se faz! Que caminho é este?!

Resta ainda acrescentar que o Governo diz recorrentemente que o financiamento para a Ciência não tem diminuído. Então para quê estes cortes? Para onde vai esse dinheiro?

O investimento em Ciência tem de ser uma ideia partilhada por todos para a defesa dos interesses nacionais e do Sistema Científico e Tecnológico Nacional, que tanto trabalho deu a construir e não pode ser destruído deste modo!» - Elza Pais, no Público.


Vagamente relacionado: A avaliação em curso pela FCT definia mesmo antes de arrancar que cerca de metade dos 322 centros de investigação portugueses seria afastada da fase seguinte do processo, onde vão estar em jogo a maior parte dos 50 milhões de euros anuais que os laboratórios vão ter para despesas correntes entre 2015 e 2020. É o que está escrito no contrato que a Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT) estabeleceu com a European Science Foundation (ESF), à qual delegou a organização da avaliação dos laboratórios, e que foi tornado público esta sexta-feira à tarde pela fundação portuguesa que financia a ciência. (18/07/2014)

  • Imagem: História da Ciência na Universidade de Coimbra, complexo jesuítico  - gravura do Séc. XVIII, Museu Nacional Machado de Castro (mais aqui)

Sem comentários: